Tribuna das Ilhas

Infinity 8
  • Início
  • Local
  • Triângulo
  • Regional
  • Desporto
  • Cultura
  • Política
  • Opinião
  • Cartoons
Últimas :
Investimento privado no Faial – realidade ou utopia?
Educação - Escola Secundária Manuel de Arriaga ocupa o 496.º lugar do ranking a nível nacional
Eleições - Carla Dâmaso assume a presidência do OMA
Agricultura - Trybio organiza cursos de instalação de pomares e de poda de fruteiras no Faial
BTT – ESMA ATIVA Primeiro encontro de BTT da ESMA junta professores e alunos
“Eco Freguesia, freguesia limpa” - Candidaturas ao programa abertas até 15 de março
Saúde - Hospital da Horta assina protocolo com Câmara Municipal da Madalena para criação de Unidade de Hemodiálise
Efeméride - Azores Trail Run® regista 4000 inscritos em 5 anos
Faial - Governo Regional assina contrato para reabilitar Solar e Ermida de São Lourenço
  • Início
  • Opinião
  • Maria Antonieta Avellar Nogueira
  • Ser açoriano…
04
abril

Ser açoriano…

Escrito por  Maria Antonieta Avellar Nogueira
Publicado em Maria Antonieta Avellar Nogueira
  • Imprimir
  • E-mail

Ser açoriano é viver encurralado na pequenez duma qualquer ilha que o mapa mostra lá no meio do nada, meio envergonhada, meio orgulhosa por se sentir rainha do mar, mas desconhecida por grande parte do mundo.

Ser açoriano é amar a ilha, esse mar que a rodeia, olhar o céu azul, o horizonte sem fim. É gostar de silêncio, de flores, dos campos, dos animais e continuar sem ambições grandes.

Ser açoriano é ter difícil adaptação  aos ruídos das cidades grandes, ao corre  corre  quotidiano, à agitação do povo que não ouve, não fala, não socorre se necessário, porque não vê, não tem tempo, não liga, não quer saber!

Ser açoriano é ser calmo, dar dois dedos de conversa a qualquer um, ter tempo para um “ haja saúde”, trabalhar o dia inteiro, voltar, entrar na mercearia, comprar às pressas umas conservas e chegar a casa com ar feliz. Tratar dos filhos, conversar com eles, sentar frente à tv e juntos verem a novela.

Ser açoriano é ter que abandonar cedo a casa paterna, caso queira entrar numa faculdade. Haverá certamente o doloroso sentimento da separação, o encarar difícil de novos usos e costumes, lágrimas engolidas, mas lá partem rijos e valentes, os açorianos.

Ser açoriano é gostar de doce de amora e capuchinho. De medronho e maracujá. De caldeirada. Sopas do Espírito Santo. Inhame e batata doce. É beber leite quente da vaca na hora da ordenha. É gostar de bolo de tijolo e pão de milho. E comer lapas e patinha. E cracas. E tratar por tu as rochas que ele pula à cata desses petiscos.

Ser açoriano é fazer uma festa pela matança do porco. Reunir a família e amigos, pôr a conversa em dia, enquanto saboreiam os petiscos.

Ser açoriano é sofrer horas e dias nos aeroportos da vida, esperando ordem do céu para o avião partir. É ficar em cima do cais, olhando o mar alteroso, até que ele dê ordem de saída para outra ilha.

Ser açoriano é estar atento à meteorologia, a fim de saber se pode ou não pode ir ou ficar. É saber ter calma para obedecer às leis do tempo.

Ser açoriano é carregar os custos da insularidade. E não refilar. É saber cozinhar em fornos de lenha, bordar tapetes, fazer rendas e trabalhar com conchas, pedras da ilha, escamas de peixe.

Ser açoriano é ter o posto de saúde ao virar da esquina e quando se sente mal vai caminhando a pé, sem qualquer alarde. Se passa uma ambulância todo o mundo entra em pânico na ânsia  de saber, quem, porquê, como, onde e agora.

Ser açoriano é estar preparado para enfrentar quatro estações num dia. Sai de casa no inverno e regressa no verão. E tem humidade o ano todo. É saber lidar com mosquitos, formigas e baratas.

Ser açoriano é saber fazer fofas e massa sovada. E dividir com os amigos. Na maior. E ser feliz e não ter grandes superfícies. Aos supermercados, pomposamente chamam híper. Não tem comboios nem elétricos.

Ser açoriano é enfrentar ventanias. Tempestades, sismos e terramotos. Ver teres e haveres destruídos em segundos e erguer a cabeça e lutar. Lutar muito até que tudo volte à normalidade.

Ser açoriano é ter garra, ser forte, ser destemido, pegar o toiro pelos chifres. É ter soluções simples para tudo, dispensando os pós de perlimpimpim. Ser humilde e ser Hércules.

Ser açoriano é estar tão isolado até o peito doer, saber dar a volta, ficar imaginando poder voar, qual andorinha em rota migratória, despedaçando as asas, no vôo, em busca d´algo diferente, em busca sabe Deus o quê. E parte muitas vezes, belo na revoada, para terras desconhecidas e longínquas, mangas arregaçadas, buscando trabalho. 

Ser açoriano é voltar anos depois, trocos no bolso, leve, feliz, abraçando a ilha com mais e mais amor. A tristeza que levou à partida, deixou-a por lá em qualquer sítio.

Ser açoriano é ficar assuntando o céu, olhando as sombras, querer agarrá- las, ouvir noticias de longe, tristes, macabras e compadecer-se com aqueles que sofrem. Porque ser açoriano é ser caridoso, ser irmão dos outros. Não interessa quem. 

Ser açoriano é poder adormecer com o brilho daquela estrela solitária, boiando no céu da sua lembrança e acordar pensando como lidar com a pequenez da ilha.

Ser açoriano em dias nublados é deixar a janela do cerebelo em fogo brando, para que ela possa receber com carinho o fermento fresco das ideias.

Ser açoriano, por vezes é desejar a mudança, mas uma mudança necessária, que não pese na alma, mudança não temida. É trazer no rosto e na atitude um cartaz de boas vindas a quem o visita. É ser poeta. É ser escritor. É não ter oportunidade de não poder, quando lhe der na gana fazer a mala, bater a porta. O mar é o travão.

Ser açoriano é ter vontade de dar um chance à vida. De abalar. De flanar. Sente-o e incomoda-se por ter de prescindir de pequenas coisas mas que ele valoriza. 

Ser açoriano é ser um corisco mal amanhado. É ter um léxico estranho, caso de “ mê pai, nhã mãe. 

Ser açoriano  é uma chatice por vezes. Mas é, por vezes uma boa chatice. Porque não tem como se chatear de verdade. É monótono e não é monótono. É bom e não é bom!

Ser açoriano é ter água por todos os lados. Muita água. Muito céu. Muito céu. Mas tem a montanha do Pico. Que se ergue majestosa, altaneira, oferecendo ao mundo um cartão de visitas difícil de superar. Dela, a montanha, se honram os picarotos, dela se orgulham os açorianos em geral.

Ser açoriano é pertencer a uma espécie de português duma figa!

 
Lido 4530 vezes
Classifique este item
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
(1 Vote)
Tweet
Login para post comentários
voltar ao topo
  • Perdeu a senha?
  • Esqueceu-se do nome de utilizador?
  • Registe-se!
  • Contatos
  • Pesquisa
  • Assinatura
Copyright © Tribuna das Ilhas 2026 All rights reserved. Custom Design by Youjoomla.com
Opinião