No dia 1 de abril, institucionalmente consagrado às mentiras, procuro ser muito mais perspicaz na leitura, dado que ninguém gosta de fazer figura de parvo perante uma peta bem pregada. Folheei os jornais e selecionei dois blocos de notícias com um critério bastante rigoroso, seguindo metodologias científicas que fui aprendendo ao longo da vida.
Um dos blocos de notícias identifica-se com a trupe esquerdista, maldizente e mentirosa de Pacheco Pereira, Manuela Ferreira Leite e quejandos.
Segundo eles, o primeiro-ministro Passos Coelho dizia que pretendia fazer um ajustamento a dois terços pela despesa e a um terço pela receita. Os dados sobre o défice de 2013 vieram mostrar o contrário, dado que os gastos do Estado aumentaram 2,4 mil milhões, tendo a receita aumentado 4,8 mil milhões, quase toda ela à custa do IRS (4,2). Estamos perante a maior carga fiscal de que há memória e as pessoas interrogam-se sobre a legitimidade de tantos sacrifícios. A dívida está nos 129%, os desempregados rondam a casa de 1 milhão, os cidadãos no limiar da pobreza já se aproximam dos 2 milhões. A euforia governamental por ter baixado o défice para 4,9% torna-se caricata quando se analisa o processo de renegociação do défice com o FMI: esteve para ser de 4,5%, em 2013, mas depois de uma jogada habilidosa passou para 5,5%, o que deu margem para este “brilharete”.
O desastre social está à vista e as consequências políticas poderão revelar-se brevemente. Basta ver o que se está passando na Europa com o avanço das forças de extrema-direita. Em França, Marine Le Pen já está transformada em estrela, seduzindo as camadas de descontentes. O fenómeno alarga-se a outros países onde, para além do xenofobismo conhecido, se junta a insegurança face à degradação do Estado Social. E quanto mais ele se degradar mais caminho se abre a essas forças extremistas. A História já o comprovou, mas parece que há pessoas que não aprendem.
Teodora Cardoso, presidente do Conselho de Finanças Públicas, traçou o futuro dos portugueses com o seu enigmático sorriso: “Os salários não vão nunca subir muito. Portugal vai competir com países com salários baixos”. E para que não houvesse dúvidas, os compadres do FMI deram-nos rasgados elogios por sermos um bom exemplo nos baixos custos salariais. E realçaram a proeza do nosso salário mínimo estar 21% abaixo do salário mínimo grego. A competitividade da nossa miséria, pelos vistos, veio para ficar.
Deixemos as maliciosas notícias denegridoras do saudável estado do país e passemos às credíveis, dadas em primeira mão pelas fontes bem informadas que sopram ao ouvido de Marques Mendes.
Dizem as estatísticas que no primeiro trimestre deste ano a Mercedes vendeu 2.913 automóveis, o que dá um acréscimo de 47,6%, face a igual período do ano passado. Por seu turno, a BMW vendeu 2.870 automóveis, o que corresponde a uma subida de 56,7%. Fontes bem colocadas garantem que neste lote foram apanhados uns portugueses espertalhaços que, para evitar que lhes retirassem o Rendimento Social de Inserção (RSI) por terem em depósito os tais 100 mil euros, descobertos por Paulo Portas, se anteciparam comprando viaturas de luxo para ficarem com a conta mais aliviada.
Outro dado, que revela a boa disposição dos portugas e a sua energia positiva, é a vontade de fazer exercício, caminhando para o supermercado. Vão lá muitas mais vezes por semana, embora comprem menos. Mas este comportamento é sinal de que estão a implementar uma alimentação muito mais racional: comer com os olhos não aumenta o colesterol. Por outro lado, é revelador de uma estratégia para obterem muitas faturas que os habilitam ao sorteio dos prometidos BMW. Mesmo sabendo que a probabilidade para ganhar o “MARILU” descapotável é de uma em 2,07 milhões, não desistem nem perdem a esperança.
Para coroar a tese do país das maravilhas, imagine-se que o número de manifestações diminuiu quase 6% em 2013, registando-se apenas 2.859 ações de protesto, o que dá uma média de 7 por dia. Uma insignificância, bem reveladora da política de sucesso deste governo.
E assim vai este país, onde há cada vez mais gente a sentir na pele a dolorosa verdade da injustiça. Não digam que é mentira.