Eram 6:30 da manhã quando chegámos. No passeio, a um degrau imenso da estrada de terra batida que as chuvas sucessivas haviam cavando, estava uma mesa de madeira, irregular e tosca, atrás da qual se sentavam, aprumados, o Presidente, o Vice-Presidente, o 1º Escriturário, o 2º Escriturário; do lado direito, estavam um delegado e um agente de segurança.
Em frente desta mesa, uma outra, mais pequena mas igualmente malfeita, esta já abaixo do degrau, já na estrada poeirenta, com duas grandes caixas de plástico translúcido em cima as quais apresentavam uma pequena abertura do topo.
A cerca de um metro desta mesa, havia-se construído o seu contorno, na estrada de terra batida, com garrafas de cerveja alinhadas com latas de bebidas variadas, com um pau ou outro, com alguns pacotes de leite vazios e prensados, e também com um ou outro sapato desencontrado ou mais que tivesse sido encontrado espalhado pela rua. Esta linha improvisada era decisiva para manter a distância da mesa com as caixas e orientar os presentes para se dirigirem à mesa maior. E eram muitas as pessoas…
Com o pé na estrada e sob um sol já quente naquela madrugada, as pessoas alinhavam-se ordeiramente numa fila que ia crescendo. Entretanto, o delegado dividiu a fila: à direita os cidadãos com prioridade, mulheres grávida e com bebés, e idosos; à esquerda, todos os demais. E ainda não eram 7 horas da manhã.
À hora marcada, o primeiro da fila prioritária dirigiu-se aos responsáveis da mesa que lhe deram duas folhas, uma de lista rosa, outra de lista azul com as quais ele se dirigiu a uma estreita e alta torre quadrada de cartão, com uma saliência num dos lados e um plano paralelo que fazia de mesa para o preenchimento dos dois boletins. Depois de escassos segundos, a pessoas saía e, sem qualquer distração introduzia os seus boletins nas respetivas caixas. Dirigia-se de novo à mesa, introduzia o dedo num tinteiro e recolhia o seu boletim de voto. Sim, esta era uma mesa de voto para as eleições legislativas (boletim de lista azul) e presidenciais (boletim de lista rosa) na Guiné.
Fui convidada para integrar a delegação de observadores do Parlamento Europeu das eleições na Guiné e observei esta mesa de voto montada ao ar livre, num cruzamento de Bissau, à semelhança de tantas outras na cidade ou de outras ainda fora de Bissau, que observei também, organizadas sob a sombra de uma árvore. Observei as filas de pessoas que começaram a chegar por volta das 5 horas da madrugada e que esperaram horas para votar, sob um sol escaldante. Observei o empenhamento e dedicação dos membros das mesas de voto que, em condições tão adversas, cumpriam com profissionalismo a missão de que haviam sido incumbidos; observei o desejo e entusiasmo da esmagadora maioria dos guineenses em votar e o orgulho que tinham no seu cartão de eleitor.
Comentei... ao que me responderam: “em Portugal também era assim depois do 25 de Abril!” Não, não creio que seja esta a comparação correta. Afinal, não me refiro às primeiras eleições na Guiné depois da independência; estas eleições vêm depois de muitas outras a que responderam sucessivos golpes de estado, justificação suficiente para uma negada desmobilização, e bem mais ponderosa do que qualquer outra que em Portugal queiram invocar para a desmotivação dos nossos potenciais eleitores.
Os guineenses não desmobilizam e, no meio de uma rua poeirenta, sob o sol africano, mergulhados na pobreza a que a instabilidade política os remeteu, votam. E dão-nos uma lição de cidadania!
www.patraoneves.eu