Por várias vezes tenho focado nestes artigos o tema da confraternização insular. Hoje volto a ele, apresentando alguns dados que me parecem interessantes para conhecermos o empenho dos nossos antepassados nessas jornadas de aproximação.
Como é sabido, a primeira grande jornada de confraternização ocorreu por ocasião do primeiro movimento autonomista, no final do século XIX. Numa viagem de micaelenses à Terceira ficaram registadas, num álbum de Mendo Bem, expressões elucidativas de uma nova visão do arquipélago e de uma nova vontade: fraternidade açoriana, alma açoriana e referência às ilhas como irmãs gémeas. Os terceirenses retribuíram o reconhecimento de amizade através da viagem solitária de Corte-Real, no chamado barco de papel. O entusiasmo depois esmoreceu, dado que o projeto autonómico aprovado para os Açores ficava aquém das expectativas.
Uns anos depois, com o futebol a ganhar cada vez mais adeptos, começaram a realizar-se excursões entre as cidades do arquipélago. E foi então que o jornal micaelense, O Reporter, captou o alcance politico-ideológico destas excursões desportivas e procurou enquadrá-las para desenvolver o espírito da confraternização açoriana. Afirmava nas suas páginas, em 1912, que com esta confraternização se pretendia criar laços de amizade para que “melhor possamos todos defender os nossos interesses e, com confiança, encarar os nossos destinos”. Depois de consolidada a solidariedade e amizade entre os ilhéus seria mais fácil concretizar “a justa aspiração do arquipélago de conquistar a sua autonomia administrativa”.
Deste modo, à semelhança do que se passava entre a Inglaterra e os Estados Unidos da América, o jornal propõe a realização de uma regata anual entre os três distritos. Em 1912, realizou-se a primeira regata na Horta e no ano seguinte em Ponta Delgada.
A taça a entregar ao vencedor tinha como “figura principal um açor e, como pormenores ornamentais, duas mãos entrelaçadas simbolizando a união, um ramo de oliveira como símbolo da paz produtiva do trabalho, um pequeno busto de mulher, a Pátria, com uma das mãos estendidas sobre o arquipélago”.
A mesma simbologia de apelo à unidade e de solidariedade insular esteve presente em Ponta Delgada, em 1913, na receção aos faialenses: no cais da cidade, um dos arcos enfeitados ostentava um açor, circundado por nove estrelas, e duas mãos entrelaçadas; outros dois arcos apresentavam dísticos onde se lia:
Bem-vindos os nossos queridos irmãos aos braços micaelenses,
Seja esta festa o início da prosperidade açoriana.
Os “certames sportivos” deram o pontapé de saída para a longa corrida em prol da aproximação açoriana. Mas, como dizia Luís da Silva Ribeiro, o clubismo exagerado rapidamente se transformava em bairrismo. Além do mais, um pontapé destinado à bola podia resvalar para as canelas e “não será nada agradável, nada confraternizante, um pontapé nas canelas”. Por isso, quando se retomaram as excursões após o primeiro conflito mundial, introduziram-se outras iniciativas de âmbito cultural, nomeadamente o teatro, palestras culturais a que se seguiram viagens de estudantes finalistas e digressões acompanhando filarmónicas..
O que acaba de ser descrito é de uma importância fundamental para a compreensão da nossa história mais recente. Tenho feito várias diligências para encontrar fotografias destes eventos, mas até agora foram infrutíferas. Não acredito que não haja reportagens fotográficas, dado que na época já a fotografia estava disseminada abundantemente pelo arquipélago, com destaque para as cidades. Espero que estas informações possam servir de estímulo para uma procura mais atenta nos álbuns de família e que as mesmas possam ser divulgadas e servir como material pedagógico para os alunos das nossas escolas. Seria um belo contributo para a história da Região e uma homenagem aos nossos antepassados.