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06
junho

Adeus Guiné

Escrito por  Laurénio Tavares
Publicado em Laurénio Tavares
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Este título não pretende convocar nem para o saudosismo de outros tempos nem sequer para avivar a memória da música do conjunto típico Armindo Campos, que, com o mesmo nome, fez história no tempo da Guerra Colonial – 1961-1974.

Antes pretendo, apenas, relembrar o 25 de Abril que, há quarenta anos, vivi na província ultramarina da Guiné-Bissau.

Estava então no cumprimento do serviço militar obrigatório, no COP 8 (Comando Operacional 8), na região de Nhacra, que era a segurança avançada de Bissau, capital da província desde 1941.

A província ultramarina da Guiné-Bissau (Guiné Portuguesa) era uma colónia de Portugal desde o século XV situada na costa ocidental do Continente Africano, fazendo fronteira a norte com o Senegal, a este e sudeste com a Guiné-Conacri (ex-francesa) e a sul e oeste com o oceano Atlântico. Além do território continental, integrava ainda cerca de oitenta ilhas que constituem o arquipélago dos Bijagós, que exibe algumas das melhores praias da África Ocidental. 

Com uma área de 36.126 km2 (28.000 Km2 são constituídos por terras permanentemente emersas, sendo as restantes cobertas periodicamente pelas marés), a Guiné era a província ultramarina de mais baixo-relevo, com uma vasta rede hidrográfica, largo número de estradas (304,93 Km, asfaltadas, dados de 1971), abundante vegetação e um clima quente e húmido, próprio das regiões tropicais. 

A população era, segundo o censo de 1960, de 544.184 habitantes (est. de 2008 indicam já 1,5 milhão de habitantes), com uma grande diversidade étnica (cerca de 40 etnias), praticando a maioria dos habitantes o animismo, seguido do islamismo, e uma minoria o cristianismo. O património cultural da província era bastante rico e diversificado.

A divisão administrativa era feita por nove concelhos e três circunscrições (dados de 1971), destacando-se a agricultura como a maior fonte de riqueza e a base da economia, sendo o amendoim, madeiras, arroz, couros, óleo de palma e borracha os produtos a que correspondiam as maiores receitas da exportação.

O mais importante núcleo humano da Guiné situava-se na cidade de Bissau, com uma população residente de cerca de 18.000 habitantes (estimativa de 1959).

De características acentuadamente tropicais a capital possuía aprazíveis jardins, boas avenidas e edifícios de aspeto moderno, sendo servida por um porto de mar. A 8 km de Bissau, ficava localizado o aeroporto internacional de Bissalanca (a TAP estabelecia a ligação aérea, com voos bissemanais, entre Lisboa/Bissalanca/Lisboa e os aviões dos TAGP-Transportes Aéreos da Guiné Portuguesa mantinham carreiras com a Praia e o Sal, em Cabo Verde).

Em princípios de 1959, Amílcar Cabral – um cabo-verdiano renegado, engenheiro agrónomo, pela Universidade de Lisboa, e funcionário público em organismos da Metrópole e da Guiné – decide iniciar a organização da luta pela independência das províncias da Guiné e Cabo Verde e, no ano seguinte, surge, na sua qualidade de secretário-geral, à frente das atividades do PAIGC-Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde.

Em 1961, junto à fronteiro norte, e em 1962 por todo o Sul da Província, foram desencadeadas as primeiras ações de terrorismo contra as populações locais. Em 1963, os bandos armados do PAIGC realizam as primeiras emboscadas às nossas tropas, flagelam aquartelamentos e cortam determinados itinerários, desencadeando uma luta armada que transformou a Guiné num dos piores cenários da Guerra Colonial.

Cheguei à Guiné (em avião militar), na situação de rendição individual, em Novembro de 1972, e saí desta Província (a bordo do paquete UIGE), na ponte marítima Bissau/Lisboa, em Setembro de 1974. Aquando da chegada era Governador da Província o General António Spínola. 

No dia 25 de Abril de 1974, pela manhã, tomamos conhecimento de ter havido um golpe militar em Lisboa, seguiu-se alguma confusão, foi reforçada a segurança do aquartelamento – que não era amurado mas vedado com arame farpado – e só um ou dois dias mais tarde se percebeu nitidamente o rumo dos acontecimentos e o que foi a “Revolução dos Cravos”, o que gerou natural regozijo por parte dos militares da unidade onde me encontrava, aspirando todos à liberdade e ao fim da Guerra Colonial.

Na altura, no nosso aquartelamento, um pequeno grupo de militares já tinha alguma consciência sobre democracia e liberdade porque dois capitães milicianos – inconformados e contestatários à ditadura, com ligação ao movimento dos capitães, que tinha largas ramificações, o que foi conhecido mais tarde – catequizavam-nos, em serões noturnos restritos, sobre a diferença entre fascismo e democracia. 

Para pôr em prática esses ensinamentos e a pretexto da cobertura de um torneio de futebol de cinco, criámos, logo em Maio de 1974 – com o apoio desses capitães – um jornal intitulado Simplesmente Desporto que, no mesmo mês, passou por um processo de saneamento da Comissão Diretiva, passando de seguida esse órgão de informação desportiva (como era intitulado) a chamar-se de 1º de Maio Desportivo, tendo eu sido um dos fundadores do primeiro e feito parte do corpo de redação de ambos. 

Como facilmente se percebe, o estímulo dos dois oficiais à criação destes jornais desportivos com pendor político – em que um foi coordenador do primeiro e outro diretor do segundo título – teve a ver com o movimento revolucionário e com os primeiros passos da democracia e da liberdade em Portugal.

O Estado Português reconheceu a independência da Guiné-Bissau em Setembro de 1974 (tendo sido a primeira colónia portuguesa no continente africano a ter a sua independência reconhecida por Portugal). Mas a independência deste território – que era o mais pequeno e mais pobre das nossas províncias ultramarinas – tinha já sido unilateralmente declarada em Setembro de 1973. Após esta data, não faltaram países a reconhecerem o novo Estado: até ao final daquele ano, foram cerca de 40 e, até final de 1974, eram já 84. 

A atual República da Guiné-Bissau faz parte da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e dos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa).  

Volvidos quarenta anos é com alguma tristeza que vejo a fragilidade do regime, a constante instabilidade politica e a miséria social reinante na Guiné, bem como a degradação urbana do que era a antes bonita, asseada e movimentada cidade de Bissau.

 

(ex-militar na Guiné-Bissau)

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