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  • Tem um bricoleur em casa?
27
junho

Tem um bricoleur em casa?

Escrito por  Maria Antonieta Avellar Nogueira
Publicado em Maria Antonieta Avellar Nogueira
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Caso não tenha, os meus sinceros parabéns! Pode considerar-se uma pessoa feliz. Se, pelo contrário a resposta é afirmativa, sinto muito. Imagino o sofrimento que já deve  ter tido e continuará tendo pela vida fora. É que o bricoleur é incorrigível , teimoso, persistente. Consegue triturar-nos a paciência. E não resolve nada.

O bricoleur é aquele indivíduo que pensa saber resolver tudo 0u qualquer problema doméstico e, pior, leva-nos a acreditar ser isso possível.

A avaria surge. E logo surge também o bricoleur pronto a dar o jeitinho salvador. Como o objecto avariado tem uma relação de amizade ou pelo menos de conhecimento com ele, mantém- se impávido e sereno, aguardando cura imediata. Sim, porque toda a aparelhagem que existe numa casa, considera-se parte integrante da família. É obediente, respeitadora e sobretudo, crente. Ao adoecer põe todas as suas esperanças de salvação nas mãos do dono.

E é aí que o bricoleur inicia o processo de cura. Desencanta a sua caixa de ferramenta ( todo o bom bricoleur possui uma ), despeja tudo no chão, arregaça as mangas, olha para quem o rodeia com um ar de sabichão e começa a destripar a máquina. Aí, tudo se torna numa visão do inferno.

Atenção. É necessário que nós, os outros, permaneçamos em silêncio, ar solene, fingindo acreditar que tudo vai dar certo. Isto é um conselho, só para mais tarde não surgirem os problemas de consciência. Bricoleur dá mais uma olhada em sua volta, meio abstrato e tranquiliza-se. Começa o trabalho.

Ora, a máquina desventrada, que, de início se portou bem, com o andar do tempo, começa a ronronar em jeito de aviso. Claro que estou a falar das mais educadas, porque algumas há, mais desordeiras, que não estão com meias medidas. Arrotam alto, estrebucham, ganem, pulam, berram, até que dão o último suspiro.

Claro está que o bricoleur, encabulado, suando, mas nunca dando o braço a torcer, levanta-se, olha a assistência e por entre alguns palavrões profere a sentença: “ deve faltar aqui qualquer peça, é melhor chamar o técnico !”. Cuidado, é importante que nós, os observadores, nos mantenhamos calmos e serenos, só com o direito a dizer “ amén”. É que então já teremos que enfrentar a bricoleur em alta depressão, a fúria da máquina e a bagunça espalhada pela casa.

E, telefone em punho, tenta-se falar com o técnico. Ora, o técnico é um indivíduo difícil de contactar. Teremos que usar o nosso melhor poder de persuasão e humildade. E esperar. 

Um belo dia, quando a coisa está esquecida, toca a campainha. Atenção! É o técnico. A primeira coisa a fazer é esconder a máquina, porque elas, as máquinas, tem o hábito de começar a funcionar quando farejam a entrada do técnico. Sabe-se lá porquê!

E então lá entra ele. Na hora de enfrentar o “bicho” ele já vai resmungando. Isto já foi mexido por algum colega que não percebe nada do assunto. E mexe e remexe , põe peça , tira peça, levanta, ajoelha e a maldita máquina continua em coma. E nós à beira dum ataque de nervos.

É então que o técnico nos encara misticamente e profere o velho oráculo : aqui há qualquer coisa! Não é nada simples. Este material não vale nada. É melhor comprar outra!

E após tão competente diagnóstico, recebe o pagamento com cara de sofrimento, de quem teve a infelicidade de levar a vida fazendo jeitos e favores. E saindo, carrega os fios, os parafusos, as chaves inglesas, as porcas e muitos ovnis( objectos vários não identificados). Atravessa a porta e lança-nos um olhar que faz crer ser o mais sacrificado burocrata. 

E, nós, que não somos de ferro, aguentámos com paciência o bricoleur, suportámos o técnico com afabilidade ( convém), olhando o montão de lixo espalhado no chão, ficamos, como dizem os brasileiros, de saco cheio. E alguém tem de pagar as favas. E quem está mesmo à mão? A porcaria da máquina. E, assim sendo não resistimos a dar-lhe um valente pontapé. Creiam, resolve. É  remédio santo. Começa a trabalhar que é uma beleza. Há máquinas que como certas pessoas só trabalham quando são tratadas a lei da bala, digo, do pontapé. 

Tem bricoleur em casa? Chamou o técnico? Coragem! Força aí!

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