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08
agosto

José Medeiros Ferreira (d)escrito por Cristóvão de Aguiar

Escrito por  Victor Rui Dores
Publicado em Victor Rui Dores
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Escritor da condição humana, Cristóvão de Aguiar escreveu, com os olhos da memória, O Coração da Memória Na Festa Da Amizade, Em Memória de José Medeiros Ferreira (Letras Lavadas edições, 2014). Trata-se de um belíssimo texto que evoca, invoca e convoca esse homem de cultura e pensamento que foi José Medeiros Ferreira (1942-2014), açoriano da ilha de São Miguel, mas “nascido por casualidade no Funchal”.

No seu diário Relação de Bordo, Cristóvão de Aguiar já havia tecido abundantes considerações sobre Medeiros Ferreira, não se misturando com o coro daqueles que, agora que Medeiros Ferreira é um morto exemplar, dócil e moldável, aproveitam o de profundis e andam por aí a tecer desvairadas ladainhas e litanias de exaltação – esses mesmos que, em vida do historiador, nunca escreveram nem disseram uma só palavra sobre os seus livros, silenciando-os na maior parte dos casos.

 Mas já se sabe: a necrofilia literária instituiu-se em Portugal, havendo, entre nós, quem continue a promover aquilo a que Augusto de Castro chamou “o culto do osso”. Só depois de morto é que o autor terá a sua consagração. As academias, por exemplo, são danadas para o requiem. Aos necrófilos não interessa quem está vivo e não foi ainda mitificado pela morte. A morte dos autores facilita a vida a certos estudiosos, e agora sim: morto aos 72 anos de idade, Medeiros Ferreira passou a ter existência contemporânea.

Mas adiante, que o tempo é pouco e o papel está caro.

Vasculhando a memória, Cristóvão de Aguiar revisita “os velhos tempos do Liceu Nacional de Ponta Delgada” e fala-nos do triunvirato de uma grande amizade selada por José Medeiros Ferreira, Viriato Madeira e o próprio autor. Sim, este livro é a história de uma amizade, iniciada nos verdes anos e mantida até aos nossos dias, com um foco especial na adolescência micaelense, numa altura em que os bons tempos não eram tempos bons. Vivia-se, então, a preto e branco, num Portugal rural, agrário, analfabeto e dominado pela repressão e pela opressão do Estado Novo.

Folheando as 60 páginas do livro, ficamos a conhecer melhor José Medeiros Ferreira, o amigo, o político, o professor, o intelectual, o historiador, o investigador, o ensaísta, o comentador, o observador acutilante que olhava a realidade portuguesa e a do mundo com insaciável curiosidade e que tinha na ironia a sua imagem de marca. Insubmisso, inteligente, culto, espírito independente, socialista sempre à beira da dissidência, este micaelense bateu-se corajosamente pelas suas ideias e convicções e fez da sua vida e da sua obra um ato cívico. Conheci-o em 1987 num Encontro de Escritores realizado na Praia da Vitória, e desde então mantive com ele fugazes relações de amizade, de camaradagem literária e de outras cumplicidades. Nos últimos tempos ia sabendo dele através do seu (excelente) blogue “Cortex Frontal”.

Deixando os Açores, Medeiros Ferreira iniciou o seu percurso na oposição estudantil à ditadura, sendo um dos principais dirigentes durante a crise académica de 1962. Foi preso e torturado pela PIDE. Exilado na Suiça, enviou uma comunicação ao Congresso da Oposição Democrática de Aveiro, realizado em 1973, na qual afirmava (com acutilante previsão) que o regime do Estado Novo só poderia ser derrubado se as Forças Armadas entrassem em ação. 

Licenciado em História e doutorado em História Institucional e Política, Medeiros Ferreira foi docente da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa entre 1981 e 2009. Depois de aposentado permaneceu como membro do Instituto de História Contemporânea e do Instituto Português de Relações Internacionais daquela instituição. Deputado à Assembleia Constituinte (1975-1976), foi Ministro dos Negócios Estrangeiros do I Governo Constitucional (chefiado por Mário Soares), assinou a adesão da República Portuguesa ao Conselho da Europa, assim como à Convenção Europeia dos Direitos Humanos e preparou, com êxito, o pedido de adesão à Comunidade Económica Europeia, em 1977. É autor, entre outros, das seguintes obras: Portugal em Transe; Um Ensaio Histórico sobre a Revolução; O Comportamento Político dos Militares; Os Açores na Política Internacional; Cinco Regimes na Política Internacional; Não há Mapa Cor-de-Rosa, a história (mal) dita da integração europeia, seu último livro publicado em vida.

Narrativa coesa, consistente e equilibrada, escrita com o virtuosismo verbal a que Cristóvão de Aguiar já nos habituou, O Coração da Memória é um livro dos afetos, rico de espessura evocativa e profundamente humano. 

A ler.

 

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