Filho de António Luís de Mendonça e de Maria José de Freitas, nasceu em 14 de janeiro de 1901 na Fazenda, junto da Grota do Telhal, freguesia e concelho de Lajes das Flores, onde o pai era um abastado lavrador, industrial de lacticínios e chefe da secretaria da Câmara Municipal de Lajes das Flores. Teve várias irmãs e irmãos, todos detentores de tradicionais pergaminhos, que os distinguia da maioria dos demais fazendenses, resultante também das suas privilegiadas ligações com a vila das Lajes, beneficiadas com a sua proximidade dessa vila. Algumas das irmãs estudaram, nomeadamente a Maria de Freitas Mendonça*, professora, que foi casada com José Nóia Vieira*, tesoureiro da Fazenda Pública de Lajes das Flores, e o irmão Fernando fez carreira como faroleiro, tendo chegado à respetiva chefia, enquanto que o irmão José foi chefe da secretaria da Câmara Municipal de Nordeste.
Depois de concluir a Instrução Primária, matriculou-se no Ensino Secundário no Liceu da Horta, em 1919, ensino esse que deverá ter concluído em Angra do Heroísmo, uma vez que na Horta não existia nesse tempo o complementar.
Ingressando a seguir no Ensino Superior, concluiu o curso de medicina em Dezembro de 1930 na Universidade de Coimbra, “com distinção”, como escreve o Jornal “As Flores”, que acrescenta: “É mais uma gloria da nossa ilha, que vai enfileirar na simpatica classe médica e de que é de esperar uma carreira brilhante, visto a sua linda classificação”1.
Depois de permanecer durante algum tempo na Fazenda das Lajes, onde tinha consultório aberto na casa dos pais, acabou por fixar residência na Fajã Grande, em meados da década de 1930, com vista a conseguir melhor clientela de doentes carecida de médico. Aí permaneceu durante algum tempo, onde colaborou na organização do futebol, em 1939, quer dessa freguesia, quer de ilha, tendo chegado a servir de dirigente e de árbitro, mostrando-se um entusiasta nos ensinamentos da modalidade. Colaborou também noutras atividades culturais, nomeadamente nos grupos de teatro que ali se realizaram.
Em data que não pudemos precisar, como não se realizava ali profissionalmente, na década de 1940 transferiu a sua residência para a Madalena do Pico, onde, para além de Delegado de Saúde concelhio, exerceu mais e melhor a atividade médica. Aí trabalhou em consultório privado, no Hospital da Madalena e noutros consultórios públicos do concelho, e até no Hospital da Horta, onde chegava a deslocar-se para ver os seus doentes. Chegou a exercer as funções de diretor do Hospital da Madalena, numa altura de expansão evidente dos serviços de saúde.
Casou com Maria Adélia Ribeiro Victor, também em data que não pudemos precisar, tendo do casal nascido Maria Adélia Victor Mendonça, Maria Irene Victor Mendonça e António Victor Mendonça, todos conseguindo frequentar cursos universitários, embora eu desconheça as áreas em que o fizeram e as carreiras que cada um seguiu.
E se é certo que se dizia que os filhos eram de esquerda e que politicamente se opunham ao regime ditatorial salazarista, também ele, após o 25 de Abril de 1974, na nossa última conversa que tivemos na Madalena, disse-me que, quando jovem, sobretudo como estudante, era de esquerda, mais esquerda do que o colega e amigo António de Freitas Pimentel*, que acabaria por aderir a esse regime.
Talvez por isso, nunca aceitou os convites que este lhe fez, como Governador Civil da Horta, para participar em cargos políticos importantes.
Ambos tiveram ascendências de origens divergentes. Enquanto que a dele, com feitio austero, vivia com certo conforto, para o meio da ilha das Flores, a do outro, pobre e simples, teve dificuldades financeiras para custear os cursos dos filhos, não obstante o respeito e a amizade que ambos nutriam um pelo outro.
Sempre viveu na sua profissão com dificuldades económicas, sobretudo durante um longo período do início da sua carreira de médico, procurando clientela que lhe garantisse serviço, mas trabalhando quase sempre gratuitamente para pobres e amigos. Dizia-me que só depois de velho é que tinham aparecido as condições para ganhar dinheiro com a sua profissão, graças à criação, por Marcelo Caetano, da segurança social, da ADSE e ao aparecimento de doentes para tratar à custa do erário público.
Era humilde e simpático para todos os que dele careciam, nomeadamente para os que ele conviviam. Conversava com os pescadores e rurais com a mesma dignidade com que conversava com altas individualidades. Faleceu em 25 de Agosto de 1976, depois de uma vida de dificuldades e de intenso trabalho profissional. Por ocasião do seu falecimento o jornal “O Telégrafo” escreveu que “O seu funeral, traduzindo a estima de que desfrutava, constituiu uma grande manifestação de pesar” 2.