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05
dezembro

REGISTO

Escrito por  Dalila Silva
Publicado em Márcio Alberto
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 A doença e a morte são dois acontecimentos da vida relativamente aos quais, ao longo dos anos, tive sempre muita dificuldade em gerir e, ainda mais, em conseguir transformar em sentimentos, ou sequer palavras, que eventualmente façam sentido.

Poder exprimir o inexprimível de uma relação diária, franca e familiar é revelar os traços de um ser humano afável, astuto, honesto e respeitador, de um Alberto Romão Madruga da Costa que, no final de uma vida social ativa que todos lhe conheceram, abraçou o desafio da Igreja dos seus Açores, que tão superiormente servira, para deitar mãos a uma área sobre a qual não tinha experiência e, ainda mais, acompanhado de alguém, como eu, jovem em idade e ainda inexperiente na profissão de jornalista.

Ainda me recordo do primeiro encontro na cripta da Igreja da Conceição e a agitação nervosa que me esforçava por conter. O nome de Alberto Romão Madruga da Costa, pelo seu percurso de vida, parecia-me tão intimidante que o sorriso do primeiro contacto e a expressão que deixou cair naquele momento - “Dra., eu também não percebo nada disto” - revelou, desde logo, a forma tranquila e honesta com que abordava os mais invariáveis assuntos.

Ao longo do tempo, habituei-me às nossas conversas de meio da manhã, depois do olhar detido sobre as notícias e os “escritos” que lhe ocupavam o pensamento, porque para os seres mais tranquilos é importante organizar tudo, até mesmo a partida, para que os “nossos” saibam “quem fomos”, “ao que viemos”e como “partimos”. Assim dizia...

A sua forma de estar no jornalismo foi, porventura, igual à que teve em outros grandes momentos da vida. Da Direção do Correio da Horta, onde partilhámos mais do que uma relação profissional, uma amizade e respeito mútuo, saiu logo após a comemoração das Bodas de Diamante do Jornal, a 4 de dezembro de 2005. Mas desde o primeiro dia em que ali entrou, enfrentando as maiores resistências e falta de afabilidade que tanto cultivou em vida, que vinha preparando esse momento. A sua preocupação expressava-se no Estatuto Editorial que faz publicar em 2005, pela primeira vez desde a data de fundação do jornal em 1930: Promover uma informação livre e pluralista, onde impere “a Verdade, o Rigor, a Objetividade e o respeito pela dignidade da Pessoa Humana”.

Infelizmente, por razões várias, o último vespertino português fechou as suas portas em 2007, mas a amizade, felizmente, não se perdeu e, nos últimos anos, foi com respeito e admiração que o vi conduzir as reuniões da Assembleia-Geral da Santa Casa da Misericórdia da Horta, instituição que reconhecia, pelos seus valores e pela inestimável ajuda ao próximo que presta em diferentes fases da vida.

Nestas parcas palavras, a que ousei apelidar de “Registo”, designação a que atribuía as suas colaborações no jornal, por não pretender fazer delas editoriais ou opiniões que suscitassem interpretações de vária ordem, fica-me uma das nossas últimas grandes conversas, precisamente no Natal passado.

Sabia-o muito doente, pois já antes faláramos e cruzávamo-nos frequentemente à entrada da Igreja Matriz. Notara o rosto pálido e perguntei-lhe pela saúde. A resposta foi rápida: - “A saúde chegou hoje, os meus filhos e netos. Tenho a casa cheia, venho comprar umas coisinhas...”

Ao ver o meu ar certamente perplexo, rapidamente atalhou: “- Ó Dra., não fique assim, sou um homem feliz e tive uma boa vida. Porque é que hei-de estar triste. Vivi uma vida longa, fiz coisas interessantes e construí uma família de que gosto muito”.

 

De facto, nunca mais estas palavras me saíram da cabeça. As palavras de quem abraça a vida com desprendimento, com serenidade, com a confiança em Deus que lhe permite enfrentar os desafios e as lutas de cada dia. Como Mateus (8:5-11), “Não encontrei em Israel ninguém com tão grande fé”, por isso, quando penso em Alberto Romão Madruga da Costa, vem-me à memória não os grandes feitos que alcançou e que são, sem dúvida, inquestionáveis, mas que partiu deste mundo, sobretudo, um grande Cristão.

Assim o recordo e assim o recordarei pelos anos que se seguirem...

 

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