João Valadão do Rosário nasceu na vila do Corvo em 25 de Janeiro de 1927, filho de Manuel Valadão do Rosário e de Maria Inácia do Rosário. Depois de concluir o Ensino Primário com excelente aproveitamento, passou a trabalhar essencialmente na vida rural dos pais, até ingressar no serviço militar. Em 1949 saiu pela primeira da sua ilha natal para cumprir esse serviço que, depois de perdida uma recruta, foi prestado no BI n.º17 de Angra do Heroísmo.
Após o seu cumprimento, mediante concurso realizado no Comando da Polícia de Segurança Pública da Horta, foi aprovado para guarda do quadro geral dessa Corporação. Assim, em 5 de Junho de 1953 ingressava no Comando da PSP na cidade do Funchal, cidade onde permaneceu até regressar aos Açores, onde foi então colocado no Comando da PSP da Horta, como era seu desejo. Permaneceu vários anos nessa cidade, aí executando os mais diversos serviços da Corporação e aproveitando as horas vagas para melhorar a sua instrução e conhecimentos, e para se preparar para ascender nessa carreira profissional a novos cargos ou categorias.
Aí nos conhecemos e trabalhámos juntos durante algum tempo. Estudávamos com objectivos diferentes.
Era inteligente e ávido de instrução e de cultura, esforçando-se sempre para melhorar os seus conhecimentos literários e profissionais, já que não nascera para se manter na Corporação na categoria com que para ela entrara.
Assim, depois de concurso adequado, onde fez provas escritas e provas físicas de elevada exigência, com várias disciplinas, foi aprovado para 2.º Subchefe de Esquadra no qual obteve boa classificação. Em 1 de Setembro de 1961 foi nomeado 2.º Subchefe e colocado no Comando da PSP da Horta, onde passou a prestar serviço de conformidade com a sua nova categoria.
Com a chagada à ilha das Flores da Estação de Tele-Medidas da França, aí por volta de meados da década de 1960, como na ilha não havia qualquer posto de polícia, foram criados, quer na vila Santa Cruz, quer na vila das Lajes, postos policiais em cada uma delas. Simultaneamente, foi necessária a criação na vila de Santa Cruz das Flores, para o controlo de fronteiras, face ao pessoal estrangeiro lá chagado, de um Posto da PIDE - Polícia Internacional e de Defesa do Estado. Até então não havia no Distrito da Horta qualquer posto da polícia política do regime Salazarista, facto que era apontado com orgulho pelo Governador Civil do Distrito, Dr. António Freitas Pimentel, um florentino que esteve no cargo 20 anos (1953-1973), depois de ter exercido com eficiência as funções de Presidente da Câmara Municipal da Horta, durante cerca de 10 anos.
Com a criação dos referidos postos, João Valadão do Rosário foi, a seu pedido, colocado no Posto da PSP de Santa Cruz, onde assumiu o respectivo comando em 29 de Junho de 1966. Na sequência da sua promoção a 1.º Subchefe, foi mobilizado para prestar serviço policial na antiga colónia portuguesa da Guiné. Deste modo, seguiu de Lisboa para a colónia da Guiné no navio “Ana Mafalda”, numa viagem inesquecível feita em camarote de 1.ª Classe, tendo lá chegado em 22 de Novembro de 1969.
Durante o primeiro ano prestou serviço numa Esquadra da PSP de Bissau, mas, no ano seguinte, foi comandar a Esquadra da cidade da Bafatá, onde esteve cerca de um ano.
Cumprida essa comissão de cerca de dois anos, regressou a Lisboa,
Pelos relevantes serviços prestados no exercício das suas funções, e por ser competente, disciplinado e disciplinador, foi condecorado e louvado várias vezes (cerca de uma dezena), com destaque para o período em que prestou serviço policial na Guiné. Deste modo, são imensas as medalhas que orgulhosamente guarda para fins históricos de recordação para a família.
Apesar de ter sido acometido por várias doenças de cariz vascular, recuperou muito razoavelmente a sua saúde intelectual e física.
Distinguiu-se por tudo isto e considera-se um homem de sorte!
FLORENTINO QUE SE DISTINGUIU
Povoador, capitão-mor, ouvidor e atribuidor de terrenos na ilha das Flores
Sabe-se que era de origem francesa e que nasceu em Viana do Alentejo, junto de Évora, por volta de 1480, ou talvez alguns anos depois, descendendo de Diogo Vaz Rodovalho, da Casa de Rodovalho, uma das mais importantes da Baixa Normandia, França (1). Este era casado com Maria Esteves Cansado, natural de Viana do Alentejo.
Sucedendo aos Teives (1352-1475) e aos Telles (1475-1504), que pouca ou nenhuma atenção haviam dedicado às Flores e ao Corvo, João da Fonseca, dado o empenho posto nas descobertas para Ocidente, por carta régia de 1 de Março de 1504, recebeu a capitania daquelas duas ilhas.
Refira-se, a propósito, que Diogo de Teive e o filho João de Teive, que haviam descoberto as ilhas das Flores e do Corvo por volta de 1452, estariam mais interessados em explorar a cana de açúcar na ilha da Madeira do que em efectuar o povoamento das ilhas do grupo ocidental do arquipélago dos Açores.
A chegada de um grupo de colonos àquelas ilhas terá ocorrido possivelmente nesse mesmo ano – não poderá ter sido muito depois – porquanto, em Março de 1515, o lugar das Lajes já era detentor do foral de Vila (2).
O novo capitão-donatário – João da Fonseca – também continental, de Évora, Alentejo, acompanhou às Flores, com o intuito de a povoar, a primeira leva de colonos, entre os quais se encontrava Gomes Dias Rodovalho. Com eles chegaram, nomeadamente, Diogo Pimentel, Antão Vaz, Lopo Vaz, os irmãos Rodrigo Anes e Álvaro Rodrigues, Pedro Vieira e João Fernandes. Este era conhecido por “o barco longo” e fazia-se acompanhar das suas sete filhas. Chegaram também os irmãos António e Pedro Fraga – com as respectivas mulheres – e Jordão Rodrigues, Gonçalo Anes Malho e João Fernandes, “o roxo” (3).
Na ocasião
Refere o historiador florentino Frei Diogo das Chagas que os citados colonos, ao passarem pela ilha Terceira, se detiveram por alguns dias na Praia, onde Antão Vaz tinha a sua casa. E que Gomes Dias Rodovalho, então ainda mancebo solteiro, ali casou com Beatriz Lourenço Fagundes, filha de Afonso Álvares Antona e de sua segunda mulher, Beatriz (5). Todavia, este grau de parentesco não coincide com o que é referido por Monte Alverne, que diz que a mulher de Rodovalho era neta, e não filha, de Afonso Álvares Antona, o “Velho” de S. Francisco, “que deu para a fundação do convento da Praia – o antigo – a ermida de Nossa Senhora da Conceição, com casas e nove alqueires de terra” (6). Refira-se, a propósito, que Chagas era bisneto de Rodovalho, pelo que é provável que seja ele quem conhecia a sua ascendência.
Quando chegaram às Flores, o capitão-donatário João da Fonseca – e não o filho Pedro da Fonseca, como erradamente escreve Frei Diogo das Chagas, pois este só tomaria posse da capitania em 1528, quando a ilha já estava povoada – logo deu a cada um desses homens a sua “data” ou “sesmaria”, isto é quinhão de terreno. Como regressasse ao Reino na mesma embarcação, a fim de ir mandando novos colonos, deixou na ilha Gomes Dias Rodovalho como seu capitão-mor, ouvidor e “sesmeiro” ou distribuidor de terras.
No dizer de Chagas, seu bisneto, foi Gomes Dias Rodovalho que distribuiu terrenos pelos novos colonos que, entretanto, iam chegando à ilha. Concedeu também aos primeiros colonos “mais largas, conforme lhe parecia e viu, [que] convinha, segundo a prática que já da ilha tinha, que para tudo do dito capitão lhe ficou poder e autoridade” (7).
Criada por Gomes Dias Rodovalho, a vara de ouvidor era prestigiosa e importante, já que tinha como ordenado anual 6 moios de trigo, dez “pedras” de lã e doze carneiros Este ordenado foi, progressivamente, reduzido “pela ambição que foi crescendo nos que queriam servir”, tanto mais que a ilha não tinha por residente o capitão-donatário (8).
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Esta figura seria semelhante à fotografia da ilha das Flores, feita por satélite, se tal tivesse sido possível no tempo
Do casamento de Gomes Dias Rodovalho com Beatriz Lourenço Fagundes, o primeiro ouvidor e capitão-mor das Flores, teve os seguintes filhos, todos eles já nascidos na ilha (9): Tomé e Francisco Gomes, ambos casados com filhas de Diogo Pimentel e Catarina Antunes; Gomes Dias Rodovalho, com nome igual ao do pai, casado com Luísa de Mendonça; Henrique Gomes, que casou com Inês Álvares; Ciprião Gomes, casado com Brízia Valadão; Fernão Lourenço, que foi casado em segundas núpcias com Violante Privado e que, por quatro vezes, a última das quais com mais de 80 anos, exerceu o cargo de ouvidor; Gracia Dias Fagundes, que foi mulher de Inácio Fraga (avós de Chagas); Nuno Gomes, casado com Maria Pimentel; Lucrécia Dias e Bárbara Dias, das quais mais nada conseguimos saber.
Francisco António Gomes, de cujo trabalho nos servimos como fonte para este registo, com a devida deferência, escreveu que “desconhece-se a data do falecimento de Gomes Dias Rodovalho, sendo provável, no entanto, que ele tenha ocorrido em meados de quinhentos (10). Efectivamente, não encontramos qualquer informação que nos esclareça em que data e local se verificou o seu falecimento, embora o local mais previsível, segundo a nossa opinião, seja
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BIBLI: Jornal “Correio da Horta”, de 25-9-1984, artigo de Francisco António Gomes; “Crónicas da Província de S. João Evangelista das Ilhas dos Açores”, de Fr. Agostinho de Monte Alverne; “Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores” , de Fr. Diogo das Chagas; “Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura”, V. 16, ed. Verbo; Gomes, Francisco António Nunes Pimentel, “A Ilhas das Flores: da redescoberta à actualidade”, 2003, ed. da Câmara Municipal das Lajes das Flores; Trigueiro, José Arlindo Armas, “Florentinos que se Distinguiram”, 2004, pp. 21-23, ed. da Câmara Municipal das Lajes das Flores.
(1) - Alverne, Fr. Agostinho de Monte, “Crónicas da Província de S. João Evangelista das Ilhas dos Açores”, Vol. III, pág. 193; (2) - Peixoto, Pe. Manuel Francisco dos Santos, “Apontamento para a História da Ilha Terceira”, pág. 88; (3) - Chagas, Fr. Diogo das, “Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores”, in. Serpa, António Ferreira, “Dois Inéditos”, pág. 125; (4) - “Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura”, V. 16, pág.734, ed. Verbo; (5) - Chagas, Fr. Diogo das, “Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores”, in. Serpa, António Ferreira, “Dois Inéditos”, pág. 125; (6) - Alverne, Fr. Agostinho de Monte , Obr. cit, Vol. III, pág. 193; (7) - Chagas, Fr. Diogo das, Obr. cit, pág. 126; (8) - Chagas, Fr. Diogo das, obr. cit, pág. 132; (9) - Idem, ibid, págs. 134 e 135; (10) - Jornal “Correio da Horta”, de 25-9-1984.
HISTÓRIAS DAS FLORES
E bom velho Ramos continuou a contar a recepção que o Pe. Malhão de paróquia da Fajãzinha propiciou ao Bispo. Diz o Pe. Malhão: «— Pois saberá V. Ex,ª Reverendíssima que tudo o que está destas portas dentro pertence-me e é obra minha, incluindo as tochas e também os tocheiros — disse-lhe o Vigário».
«O bispo olhou para os rapazes, que continuavam imóveis no seu posto e lambendo os beiços, em melífluo sorriso, a todos deitou a sua respeitável bênção. Bons tempos aqueles…» — concluiu o Sr. Ramos.

Esta casa típica da freguesia da Fajãzinha podia ter sido a casa do Sr. Ramos, onde o escritor faialense Ernesto Rebello situa a noite de Reis da sua história. Desenho do Eng. Sérgio Paixão.
« — Está visto que sim — respondeu ainda o [músico] do bombo — eu cá houve tempo em que o Vigário de minha freguesia era o Pe. Malhão, bom homem, muito dado, muito relacionado que na área da sua paróquia contava, segundo reza crónica, quarenta descendentes, por isso pode avaliar-se o que é a gente nascida ali, digo-o sem orgulho».
«— Quarenta!... parece exagero ainda que…».
«— Pois olhe que é puríssima verdade e para prova é que no folheto dos ‘Sete Pecados Portais’, escrito aqui na ilha, mas impresso em Lisboa, o tal Vev.º Vigário figura como representante do 3.º pecado. Aquela brincadeira, honra lhe seja, foi feita pelo Pe. Camões, nosso patrício».
« — Este diabo é um almanaque — acudiu o mais novo dos rapazes que tocava ferrinhos, — que era esse Pe. Camões, desse nome nunca ouvi falar senão num que, há muitos anos, escreveu versos e meu avô tem um livro dele que se chama os Lusíadas».
«— Aquele de que eu trato era outro, natural aqui das Flores e que possuía a melhor biblioteca talvez dos Açores. Quantos livros vocês por aí encontram ainda, eram seus, e escreveu também o ‘Testamento do Burro’, que é obra bem acabada e na qual não se esquecia de muitas desta terra».
«— O Pe. Camões! — disse ainda o velho Ramos — conheci-o perfeitamente, tinha a mania de ser ouvidor nas Lajes e por isso indispôs-se com muitos colegas daqui, eram trinta câes a um osso, a quem não o poupava ele pagava-lhe na mesma moeda (13). Morreu pobre haverá uns trinta e cinco ou quarenta anos e, diga-se a verdade, homem mais generoso jamais conheci, quanto ganhava quanto dava».
E Manuel Ramos acrescentou: «— Só a papelada que ele deixou quando morreu e tudo puxado da sua cabeça”.
« — O que não dispõe muito a favor do seu bom senso, para que demónio se punha o Padre Camões a cansar cá na ilha?... Olhe Sr. Ramos, eu cá em tendo o meu bombo em perfeito estado e duas ou três raparigas de truz a quem arraste a asa, estou nas minhas quintas, não me importo em mais nada. Se eu a esta hora estava na Fajã-Grande…».
«— Havias de fazer grandes coisas, não há dúvida — disse-lhe um dos companheiros — o que me parece é que o tal padre Camões se vivo fosse não deixava de te incluir nos seus versos, aplicando-te uma boa sova».
« — Se fosse bem dada, não me queixava».
«O Ramos acrescentou ainda»:
«— Que ele tinha bastante graça, era ponto de fé e conservou sempre aquele génio alegre até à última hora. Quando o Padre Camões, que passava a vida a ler e a fazer versos, enfermou gravemente, já idoso, pobre e ralado de desgostos, eu muitas vezes ia visitá-lo, porque éramos então vizinhos e disse-me por várias vezes que tinha uma gaveta cheia das suas obras, mas disso tudo deram, depois, cabo os herdeiros. Até um irmão dele, também clérigo e que fora frade foi o mais empenhado nisso, pois dizia sempre que era o diabo quem lhe inspirava tais cantigas».
«— Pedaço de burro!»
«— Lembro-me até, foi no derradeiro dia da sua existência, o Padre Camões já estava muito fraquinho, fui vê-lo de manhã e em quando lá estava chegou o irmão, que de há muito não o procurava. O Camões sorriu e disse-lhe: Tu por aqui?! ... ora ainda bem, sempre somos irmãos e nestes momentos esquece-se tudo…»
E o Sr. Ramos continuava a contar histórias, agora a relativa ao seu ilustre conterrâneo, Padre José António Camões, baptizado na freguesia da Fajãzinha em 13 de Dezembro de 1777 e falecido na freguesia de Ponta Delgada das Flores em 18 de Janeiro de 1827 (13-A). (Continua)
(13). Rebello, Ernesto, “Uma Noite de Reis na Freguesia da Fajãzinha”, “Arquivo dos Açores”, (1885), p.170, republicado em 1982 pelo Universidade dos Açores - Ponta Delgada.
(13-A). Trigueiro, José Arlindo Armas, “Obras”, (2008), pp. 21-35, edição da Câmara Municipal das Lajes das Flores.
HISTÓRIAS DAS FLORES
(Continuação)
Na referida reunião, talvez feita no descampado do Rochão do Junco ou junto da Fonte Frade, uns músicos da “Philarmónica Amizade” aprovavam o regresso a Santa Cruz, mas a maioria decidiu continuar a viagem (6).
“- Ó aquele, olha que isto hoje há aqui facadas, toca o burro, não te faças tolo!...”

Esta Filarmónica da vila de Santa Cruz das Flores, pode ser a “Filarmónica Amizade” ou “Amor da Pátria” de que nos fala Ernesto Rebello. Foto dos arquivos de João António Gomes Vieira.
“ - Não dou mais um passo, sem que vocês me dêem bastante genebra, ora eu que podia estar sossegado em casa…”
“ - Pega, ladrão, bebe à tua vontade e não estejas a desanimar os outros».
A contenda foi resolvida pela voz autorizada do regente da música, que desejava velar pelo prestígio da filarmónica (7).
“ - O mestre da música tem razão — bradaram outros — primeiro que tudo salva-se o instrumental”.
“-Para a Fajãzinha - exclamaram os da frente tornando-se os líderes da caravana».
Por sua vez, o tocador do bombo gritava: “-para a Fajã Grande… para a Fajã Grande…», sem atender às condições da ribeira, que era a maior dificuldade e que bramia furiosa. E a discussão continuava…(8).
“- Silêncio, Srs. - acudiu o mestre da música, temendo novas questões - nós vamos em breve entrar na freguesia [da Fajãzinha], e os Srs. devem-se portar como pessoas ilustradas, que são, um músico não é para aí qualquer coisa… haja prudência….”
“O dono da casa, [um dos vários amigos], segundo todas as aparências, já estava em meio do primeiro sono, ali não se via luz, nem se descobriu o mínimo sinal de vida».
“Os músicos enfileiraram em frente desta residência e de repente uma alegre tocata, o hino da filarmónica, vibrando com a máxima valentia, “estúrdia” os ares, fazendo estremecer as vidraças das casas circunvizinhas e despertando toda a povoação, cujos habitantes em crescente número, começaram a aglomerar-se em redor dos tocadores”.
“Quem não aparecia ainda à janela era o dono da casa, que pesado sono!...”
“ - Vá lá, rapazes, - gritou entusiasmado o mestre, por ver o levante que os seus discípulos estavam fazendo na freguesia - agora os Reis, mas isto bem afinadinho…[…]”
“Finda a cantilena, uma voz ergueu-se entre os músicos. (9)”.
“ - Viva o Sr. Ramos!”
“E toda a multidão repetiu: - Viva, Viva!”
“O bom velho vestiu-se à pressa e abrindo logo a porta, disse de cima do seu balcão: “
“ - Eu não sei quem os Srs. sejam, mas esta casa é sua, vamos a entrar…”
“ - É gente de paz, a filarmónica da Vila, que lhe vem dar as boas festas”. “[…]»”
Dentro de meia hora a casa do Manuel Ramos estava cheia de comer, e a linguiça assada espalhava por toda a casa o mais apetitoso cheiro, e, nesse esforço de pão e vinho, toda a gente da freguesia que ali estava compartilhava francamente.
O dono da habitação, que era homem benquisto, exuberava de alegria, tendo-se levantado muitos brindes com as mais ruidosas saudações.
Depois, por mais de uma vez, o tocador do bombo procurava imaginar-se com a sorte que teria se tivessem chegado à Fajã-Grande e, depois da forte festança ter passado, um dos habitantes locais, mais cerimonioso, disse aos companheiros (10).
“ - Ó amigos, estes Srs. hão-de carecer de repouso, para espairecer nesta noite dos Santos Reis, já temos comido e bebido à farta, agora o melhor é a gente ir para nossas casas.»
Depois de mais cânticos em louvor da Epifania, era uma hora da noite e ali ainda se cantava, comia e bebia. Contudo a gente da freguesia foi-se retirando.
Assim «O Manuel Ramos achou-se afinal tão-somente com os seus doze hóspedes».
Apesar de ter sido necessário forrar a casa com lençóis para lhe tapar os buracos, já que a mesma estava ainda em construção e incompleta interiormente, tendo sido necessário colocar uma esteira para que todos ficassem convenientemente instalados. O Sr. Ramos mandou o Francisco, um rapaz local que o ajudava nos trabalhos da casa, trazer os últimos lençóis (11).
“ - O Sr. Ramos está perfeitamente preparado para receber hóspedes”.
“ - Perfeitamente não direi e conheço que isso são favores, mas o que eu posso certificar aos meus amigos é que o que aí vêem é tudo meu”.
“ - Isto faz-me lembrar uma história que contava meu pai, de quando esteve nesta terra um Sr. Bispo” - acrescenta Manuel Ramos (12)”.
“ - Como foi, diga?”
“ - É que o Bispo, andando em visita pela ilha – [disse Manuel Ramos] – veio hospedar-se em casa do Vigário antigo desta freguesia. O bom do padre não se poupou a trabalhar para receber condignamente o seu prelado, preparou o quarto de jantar, cobrindo a mesa de boas iguarias e com o melhor vinho, apresentou as melhores louças, cortinados nas janelas e, à noite, à ceia, colocou em cada canto do quarto um rapaz, imóvel, com o braço estendido, como uma estátua, segurando uma grande tocha acesa na mão. O bispo gostou daquela lembrança, um tanto original, fartou-se de carne assada e de massa sovada, mais guloseimas, e afinal não trepidou em descer na sua imponente dignidade para elogiar o Vigário não só a boa cozinha, como o asseio e bom gosto de todos aqueles aprestos, incluindo as quatro figuras ornamentais».
Os músicos escutavam com imensa atenção a história do dono da casa.
HISTÓRIAS DAS FLORES
«Uma Noite de Reis na Freguesia da Fajãzinha - Ilha das Flores», é um dos melhores trabalhos que conhecemos do escritor faialense Ernesto Rebello, quer literariamente, quer como história tradicional brilhantemente imaginada na ilha das Flores, constante do «ARQUIVO DOS AÇORES», Volume VII, pp. 159-175, (1).
Para facilitar o seu conhecimento generalizado aos leitores, designadamente dos florentinos, vamos sintetizar os principais temas do texto, actualizando o português dos respectivos os excertos, uma vez que o mesmo esta escrito no português arcaico do século XIX. Meio verdadeiro e meio fictício, trata-se de uma excelente trabalho imaginado e romanceado pelo autor.
Ernesto de Lacerda de Lavallière Rebello, nasceu em Lisboa a 26-4-1842 e morreu na Horta em 15-11-1890. Era filho de Francisco Peixoto de Lacerda Costa, advogado, natural do Faial, e de Maria Elisa Nunes de Lavallière, natural da Guiana Francesa. É considerado um dos mais distintos escritores faialenses, quer em prosas, quer em poemas, tendo deixado o seu nome a várias instituições de cultura, nomeadamente ao Grémio Literário Artista Faialense, ao Grémio Literário Micaelense e ao Grémio Literário de Angra do Heroísmo. Deixou vasta obra literária, em livros, jornais e notas açorianas diversas (2).
Deste modo, é com base naquele trabalho que procurarei sintetizar aquele texto, dado o interesse que o mesmo tem para os florentinos. Não por se tratar de factos históricos integralmente verdadeiros, mas de factos habilmente imaginados pelo autor que, efectivamente, se poderiam ter passado naquele tempo na ilha das Flores. Assim, tentarei não desvirtuar o realismo excelentemente e imaginativo que o autor deu ao texto da deslocação da filarmónica de Santa Cruz das Flores à freguesia da Fajã Grande.
Ernesto Rebello começou por descrever o cuidado que os músicos da filarmónica da vila de Santa Cruz das Flores tiveram em limpar os metais e os pistões do respectivo instrumental. Refere que o acontecimento se terá verificado aí por volta de 1878, logo, segundo os meus cálculos, na vigência da “Filarmónica Amizade” que terá sido fundada em 1875 (3). E, embora os músicos fossem apenas 12, de vinte a vinte e cinco primaveras, a preparação da sua saída para a Fajã Grande, onde a filarmónica ia exibir-se nas Festas dos Reis, revestiu-se de grande e importante azáfama, com a junção das cavalgaduras que os iam transportar, e, sobretudo, com a aglomeração de pessoas que quiseram estar presentes à sua saída: namoradas, familiares e pequenada que os acompanharam pelas ruas da vila. Depois das despedidas das «formosas» florentinas, «os velhos desdenhando» […] «gabavam muito o seu tempo», enquanto que os novos que «não podiam acompanhar» os músicos «os olhavam invejosos» e «em que as meninas choravam nas adufas» das janelas, os cães ladravam a todo aquele burburinho (4). Ao atravessarem a vila, ouviam-se «as risadas dos alegres excursionistas, os adeuses das namoradas, a vozearia dos gaiatos, os latidos dos cães e os sorrisos dos velhos relembrando-se do seu tempo e das suas turbulentas africanadas».
Para os sítios em que a filarmónica seguia, no interior dos matos da ilha, o caminho era em parte de estrada mas, como haviam saído já tarde, previa-se que só com grandes diligências poderiam chegar ao seu destino antes da noite fechada.
Refere o autor que «os matos da ilha das Flores são formosíssimos, o tempo estava sereno, verdejantes colinas e algumas planícies, de prazenteiro aspecto, apesar da estação invernosa, tornavam muito aprazíveis aqueles sítios, com sete caldeiras, mais ou menos profundas, dispersas aqui e além […] extasiavam a vista com o seu encantador aspecto». Todavia, «naquela breve tarde de Janeiro, o Sol começou a declinar-se no horizonte, com algumas nuvens nocturnas, negras e ameaçadores que surgiram por detrás das mais altas serras […] a fazer murmurar os arbustos do mato, ou tirar gemidos dos arvoredos».
Os grossos pingos de água vinham manchar a nitidez, pelo que os burros cruzavam as orelhas e seguiam mais vagarosos (5).
A noite desceu rápida e tenebrosa e os músicos seguiam calados embrulhando-se como podiam nos casacos e virando para baixo as abas dos chapéus de feltro para a água não lhes entrar no pescoço.
« — Isto vai tornando-se sério — gritou entre as sombras um tocador de contrabaixo — o instrumento já me apanhou uma amolgadela e tem bebido água que nem um funil, é capaz de não querer toar».
«— Cala-te, toleirão — respondeu o do rufo — eu cá botei o meu casaco por cima da pele desta caixa […]».
O do bombo soltando uma forte risada, exclamou:
«— Imaginem vocês se as nossas meninas da Vila nos vissem neste belo estado, que lágrimas não chorariam…»
O mau tempo crescia sempre, e a ventania nem os deixava seguir. Fizeram alto e reuniram, numa espécie de conselho de guerra, para decidirem o melhor partido a tomar.
(Continua)
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(1). Rebello, Ernesto, “Uma Noite de Reis na Freguesia da Fajãzinha”, “Arquivo dos Açores”, (1885), pp. 159-175, republicado em 1982 pelo Universidade dos Açores - Ponta Delgada.
(2). Arruda, Luís M., biografia na “Enciclopédia Açoriana”, Centro de Conhecimento dos Açores, Internet.
(3). Gomes, Francisco António Nunes Pimentel, “A Ilha das Flores: da redescoberta à actualidade”, 2003, p. 487, ed. da Câmara Municipal das Lajes das Flores; Rebello, Ernesto, “Uma Noite de Reis na Freguesia da Fajãzinha”, “Arquivo dos Açores”, (1885), pp. 159 e 160, republicado em 1982 pelo Universidade dos Açores - Ponta Delgada.
(4). Rebello, Ernesto, “Uma Noite de Reis na Freguesia da Fajãzinha”, “Arquivo dos Açores”, (1885), p. 161, republicado em 1982 pelo Universidade dos Açores - Ponta Delgada.
(5). Rebello, Ernesto, “Uma Noite de Reis na Freguesia da Fajãzinha”, “Arquivo dos Açores”, (1885), p. 162, republicado em 1982 pelo Universidade dos Açores -Ponta Delgada.
Foto 1: Vista parcial da vila Santa Cruz das Flores, em 1950, que se julga não ter estrutura muito diferente, relativamente à do tempo de Ernesto Rebello. O navio “Carvalho Araújo”, ligava a ilha com Lisboa. Foto da Jovial - Horta (de Júlio Vitorino).