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Susana Garcia

Susana Garcia

22
junho

Pedro Laureano Claudino da Silveira (1870-1944)

Publicado em José Trigueiro
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FLORENTINO QUE SE DISTINGUIU

Fundador do “Jornal Português” da Califórnia, empresário, editor e jornalista.

Nasceu na freguesia da Fajã Grande, concelho de Lajes das Flores, em 7 de Dezembro de 1870, filho de José Laureano da Silveira e de Maria Claudina da Silveira. Era tio do nosso ilustre poeta e escritor florentino Pedro da Silveira.

Aí fez o exame final do Ensino Primário com a elevada classificação de “distinto”. Surgiu-lhe então na mente a ideia, de certo modo arriscada para sua idade, de ir para o famoso “El Dorado” da Califórnia, por onde o pai já andava atarefado à procura do poderoso metal – o ouro. Esse era um desejo de qualquer jovem da sua e de muitas gerações florentinas

Assim, não tardou muito tempo para que o seu belo sonho se transformasse na estranha mas bela realidade da sua vida – a emigração para a Califórnia. Ao despedir-se de sua mãe e do resto dos familiares e amigos, feriu-lhe o coração juvenil o doloroso espinho da saudade, não obstante saber que brevemente encontraria seu pai, cujos braços o cingiriam alegremente e lhe serviriam de protecção amiga, afável e confiante para a longa e espinhosa vida de emigrante.

No dia 15 de Agosto de 1886 chegou à Califórnia, depois de ter passado pelos habituais imprevistos da tormentosa e longa viagem. Tinha 15 anos de idade.            Inicialmente trabalhou em San Francisco em vários serviços vulgares, ocupando as horas vagas no estudo da língua inglesa.

Seguidamente foi ter com o pai, com o qual trabalhou em minas de ouro no Estado de Oregon e no Norte da Califórnia, próximo de Arcata, onde ainda hoje se encontram muitos florentinos. Mas, principalmente porque lá lhe faltavam os meios para se instruir e por não gostar do trabalho de mineiro, voltou a San Francisco, onde trabalhou em diversos serviços e continuou os estudos nas horas vagas. Aí tirou alguns cursos de ciências e artes, adquirindo deste modo uma vasta soma de conhecimentos úteis à sua futura vida profissional.

Visitava com frequência diversas empresas jornalísticas californianas, para nelas ler jornais e revistas portuguesas e americanas, adquirindo assim conhecimentos que lhe viriam a ser muito úteis. Chegou mesmo a trabalhar nessas empresas, nelas obtendo bastantes conhecimentos da arte tipográfica.

Nesse tempo publicavam-se na Califórnia quatro jornais de língua portuguesa: “A União Portuguesa”, em San Francisco, de que era proprietário e editor Manuel de Freitas Martins Trigueiro, natural da Fazenda das Flores; “O Arauto”, em Oakland, que tinha como seu proprietário Joaquim de Menezes, natural da Terceira; “O Repórter”, também em Oakland, de que era proprietário, editor e redactor Constantino Leal Soares; e “A Liberdade”, em Sacramento, de que era proprietário, editor e redactor Guilherme Silveira Glória, natural do Pico.

E foi precisamente no semanário “A Liberdade”, fundado em 1900, que Pedro Laureano Claudino da Silveira obteve emprego como tipógrafo e colaborador, meses depois do início da sua publicação.

Por vezes, na ausência do editor, e a pedido deste, redigiu alguns editoriais, os quais mereceram a aprovação e o elogio do excelente titular do cargo, Guilherme S. Glória – o célebre Padre Glória – bem como o bom acolhimento dos numerosos leitores do jornal. Deste modo, “A Liberdade” entrou numa situação económica desafogada e clara, transparecendo-lhe assim um sorridente e compensador futuro de prosperidade.

Mas, em 1902, Pedro Claudino da Silveira fixou-se na cidade do Fresno, onde tinha o irmão António. Aí, em 1903, viria a contrair matrimónio com a jovem Maria V. Nunes, filha de naturais da Fazenda das Lajes das Flores. Em 1905, fez a sua primeira tentativa, como proprietário e editor, na fundação de uma revista – “Portugal-América” – que, por falta de recursos, teve vida efémera.

Depois desse fracasso, o jovem casal fixou-se em Sacramento, onde ambos foram alegremente recebidos pelo casal Glória, proprietários do jornal “A Liberdade”, onde ele voltou a desempenhar as antigas funções. Trabalhou em traduções, nomeadamente na do romance “Jacinta”, e escreveu uma secção humorística do jornal, com o título de “Receitas do Dr. Arengas”, bem como diversos artigos de fundo.

 Em 1907, havendo uma vaga importante nos quadros do jornal “A União Portuguesa”, a convite do seu proprietário e director, Manuel de Freitas Trigueiro, o casal mudou-se para a cidade de Oakland. Este emprego, para além de ser mais seguro e com maiores garantias de acesso, exigia maiores desafios e responsabilidades.          Passados que foram dez anos, com a prática entretanto obtida, resolveu estabelecer-se por sua conta. Assim, adquiriu, em Janeiro de 1917, o “Arauto”, de Oakland e funda, em 8 de Fevereiro, em San Francisco, o seu primeiro jornal – o “Jornal de Notícias”. Para além de ficar como proprietário, editor e redactor, sua esposa assume a administração do referido jornal. Com imaginação e experiência, o jornal crescia de dia para dia, atingindo um dos pontos mais altos da sua existência quando o mesmo abriu um “Concurso de Beleza das Crianças Portuguesas da Califórnia”. O referido Concurso teve um sucesso excepcional, principalmente devido à vigilância, zelo e organização da esposa.

Com o “Jornal de Notícias”, depois de adquirir “O Imparcial” e “A Colónia Portuguesa”, em 24 de Junho de 1932 fundiu-os e todos deram lugar ao “Jornal Português” que, em 1 de Julho, anexava o “Amigo dos Católicos” que, por sua vez, havia sido criado em 1888. Assim, o “Jornal Português” assumiu-se como a sua grande obra, já que atingiu uma invulgar expansão junto das comunidades portuguesas espalhadas pelos EUA.

Em 1938, com um extenso e bem elaborado número especial, ilustrado com várias fotografias, o “Jornal Português” comemorava 50 anos de existência – as suas “Bodas de Ouro 1888-1938” da sua base histórica. Essa edição, que foi constituída por 122 páginas, abriu com uma “Mensagem do Presidente dos Estados Unidos aos Portugueses da Califórina”, Franklim Roosevelt, ilustrados com fotografias dos presidentes americanos e portugueses, bem como mensagens das mais altas entidades portuguesas e americanas da Califórnia. Contém informações e registos biográficos de grande interesse histórico para a comunidade portuguesa aí estabelecida, e é riquíssimo em informação e artigos de opinião (cerca de 90%) e publicidade (cerca de 10%).

Já afectado pela debilidade da doença e da idade, em 1938, apesar de continuar a dar preciosa colaboração ao jornal, tinha entre mãos um importantíssimo trabalho para a comunidade portuguesa desse tempo, que sempre pretendeu ajudar – a elaboração dum “Dicionário Inglês-Português”. Nessa data, a avaliar pela qualidade do trabalho já realizado, previa-se que a referida obra lançaria o seu autor nas páginas da história luso-americana. Infelizmente, faleceu sem concluir tão importante trabalho.

O seu falecimento ocorreu em 28 de Dezembro de 1944, tendo sido um dos últimos grandes obreiros da fundação da imprensa de língua portuguesa na Califórnia.

Pedro Claudino da Silveira era admirado, elogiado e distinguido pelo seu carácter exemplar, pela sua honradez e pela sua sinceridade para com todos.

Por isso mesmo, a comunidade portuguesa da Califórnia soube aproveitar os seus méritos, quer em associações de interesse social, quer nomeando-o, várias vezes, para a representar em comissões de grande responsabilidade, principalmente nas seguintes:

- Comissão do Dia de Portugal, na Exposição Panamá-Pacífico de 1915;

- Comissão de Recepção dos Oficiais e Marinheiros do Cruzador S. Gabriel;

- Comissão de Recepção do Dr. Bianchi, Ministro de Portugal em Washington.

Do seu casamento nasceram: Eloy Silveira, que durante vários anos foi empregado da Empresa American Trust C.ª, com actividade bancária, de San Francisco; e Marie Jane Silveira, que cursou no Roosevelt High School.

 Nos últimos anos da sua vida, por motivos de saúde e por se encontrar ocupado com o trabalho de compilação do Dicionário acima referido, a administração do jornal passou a ser feita pela sua inteligente, talentosa e gentil esposa, que tinha como auxiliar Alberto Correia, que muito se distinguiu na comemoração das Bodas de Ouro do “Jornal Português”.

 O “Jornal Português”, que habilmente projectou, há pouco anos, continuava a ser publicado na Califórnia, em San Pablo, mantendo o nome que o notabilizou. Não obstante ter passado por um curto período de interrupção, segundo nos informaram recentemente, o “Jornal Português” é propriedade, actualmente, de emigrantes de origem faialense.

Pedro Claudino da Silveira entrou na história, não só pelos êxitos da sua persistente luta pela vida e pela cultura, mas também pelo valor literário dos seus escritos e, sobretudo, pela projecção que conseguiu dar à imprensa portuguesa na Califórnia.

___________________

 BIBL: “Jornal Português”, Califórnia, número especial 1888-1938;  “Jornal Português”, Califórnia, de 29-9-1977; Jornal “Correio da Horta”, de 15-1-1985; Trigueiro, José Arlindo Armas “Florentinos que se Distinguiram”, (2004), pp. 119-124, ed. da Câmara Municipal das Lajes das Flores. 

              

                             

 

               

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09
junho

JOSÉ DE FREITAS GOMES (1918-2001) - Chefe de esquadra e comandante da PSP da Horta

Publicado em José Trigueiro
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FLORENTINO QUE SE DISTINGUIU

Nasceu na Fazenda, freguesia e concelho das Lajes das Flores, em 25 de Novembro de 1918, onde viveu até seguir para a vida militar. Era filho de António Pereira Gomes, lavrador, que havia andado emigrado pelos EUA, e de Maria de Freitas Trigueiro Gomes, doméstica, residentes no lugar da Grota. Era irmão de Raulino Pereira Gomes e de Fernando Pereira Gomes, que emigraram com as famílias para a Califórnia, EUA, onde viriam a falecer. 

Na sua terra natal fez a Instrução Primária, tendo tido como professor o picoense Manuel da Silva, que era casado com a prof. Maria do Céu Gomes, natural da freguesia. Mais tarde este casal viveu e leccionou largos anos na cidade da Horta, designadamente ela, que, havia sido das alunas mais brilhantes dos seus cursos. As filhas, que seguiram as profissões dos pais, foram igualmente brilhantes nos seus cursos, enquanto que o filho, José Mário, residente na Horta, foi dedicado funcionário de Finanças nesta cidade.    

Até ir para a vida militar, José de Freitas Gomes trabalhou com os irmãos na lavoura dos pais, onde o pai se distinguia por falar, mesmo sozinho, em português e em inglês.

O Serviço Militar foi prestado na ilha Terceira, durante o período moroso e difícil da II Guerra Mundial, onde ele estava quando os ingleses praticamente forçaram a sua entrada na ilha, para assim acabarem com o domínio dos submarinos alemães nos mares dos Açores. Fez parte das tropas que estavam preparadas para atacar os ingleses, por ordens de Salazar, quando estes se aproximavam do Porto Pipas de Angra. 

Depois, ainda na década de 1940, após concurso, ingressou nos quadros da Polícia de Segurança Pública como guarda, prestando serviço durante vários anos no Comando da PSP da Horta. Aí estudou em explicadores privados, procurando melhorar a sua instrução e, simultaneamente, os seus conhecimentos policiais, sempre na ânsia de ascender na sua carreira profissional. Assim, na década de 1950, mediante concurso, foi promovido a Sub-Chefe. Face à sua promoção a Sub-Chefe Ajudante, foi colocado na Praia da Vitória, onde permaneceu durante vários anos. 

Entretanto, em 27 de Julho de 1944, casara na freguesia da Fazenda, por procuração, com Maria Gonçalves Gomes, que também era natural da sua terra natal, de cujo casamento nasceu a filha, Maria Antónia de Freitas Gomes Martins da Cruz, que se licenciou em Engenharia Agrónoma. Esta, que também já faleceu, foi casada com o Eng.º Agrónomo José Luís Martins da Cruz, natural de Mirandela, de cujo casamento nasceram Ana Luísa, João Paulo e Luís Miguel (estes gémeos), seus netos, de quem os avós tanto gostavam, todos residentes em Lisboa.

Com a sua promoção ao cargo de Chefe de Esquadra, ainda na década de 1950, regressou à cidade da Horta onde viveu até à sua aposentação, a qual viria a ocorrer nos últimos anos de década de 1970. No Comando da Polícia da Horta, para além de ter desempenhado cargo de Chefe de Esquadra, exerceu, em acumulação, durante vários anos, as funções de Comissário. E, em regime de substituição, assumiu também, por várias vezes, o cargo de Comandante da PSP da Horta, lugar que acumulava com dedicação e competência.

Durante o desempenho das funções de chefia, passou por alguns períodos de difíceis actividades policiais, com destaque para o ano de 1961, quando o regime previu que o General Humberto Delgado viesse instalar na Horta um Governo Provisório de oposição a Salazar. Nesse tempo a polícia, assim como as autoridades marítimas da Horta, vigiavam – de noite e de dia – a aproximação à ilha de qualquer navio suspeito, vigilância essa que chegou a ser extensiva aos vigias de baleias nas diversas ilhas do Distrito. Outro momento que exigiu alguma vigilância da PSP da Horta do seu tempo, também ocorrida nos primeiros anos da década de 1960, foi a criação da Casa do Povo dos Cedros, onde os distúrbios ali havidos originaram patrulhas nocturnas dobradas feitas nessa freguesia sem nenhumas consequências especiais. Pelo contrário, foi notória a hospitalidade e simpatia dos cedrenses para com a polícia, que presenteava durante a noite com café e biscoitos.

Outro período que causou à PSP da Horta alguma perturbação verificou-se por ocasião da “Revolução de Abril”, nos anos de 1974 e 1975, com os comunistas por um lado, e com os separatistas pelo outro, a pretenderem dominar, respectivamente, o País e os Açores. Embora a PSP se tenha mantido fora da política, já que logo aderira ao “movimento do MFA” que fez o Golpe de Estado do “25 de Abril” de 1974, aqueles movimentos deram alguma preocupação aos comandos da PSP. Esses momentos da “Revolução” terão sido os mais difíceis para sua chefia, não obstante na ocasião o Comando da PSP da Horta ter estado, essencialmente, sob a responsabilidade de um oficial do Exército, o Capitão e ou Major Manuel Simas, natural das Ribeiras do Pico.

Fora disso, apenas eram dignas de registo as passagens pela Horta de navios, nomeadamente dos ingleses, geralmente causadores de zaragatas, mas talvez menos perturbadoras do que são hoje algumas noitadas.

Salienta-se que houve períodos no terceiro quartel do século XX em que dois florentinos (fazendenses) dominavam a governação e a autoridade policial do Distrito da Horta: o Dr. António de Freitas Pimentel, como Governador Civil, e José de Freitas Gomes, como Comandante da PSP, em regime de substituição.

José Gonçalves Gomes era uma figura simpática e popular, que procurava resolver os problemas policiais sempre consciente que servia uma sociedade – da cidade da Horta ou do Distrito da Horta – onde praticamente todos se conheciam e faziam as suas vidas lado a lado, dia a dia.

Cumprimentando delicadamente todas as pessoas com quem se cruzava, mantinha a simplicidade que trouxera da sua linda ilha das Flores, ilha essa que ele tanto amava e que sempre saudosamente gostava de recordar e visitar. As trampolinas da sua juventude e as tertúlias com os amigos eram por ele narradas com uma saudade indescritível, as quais geralmente o faziam chorar de saudades da terra que o viu nascer.

Faleceu em Mirandela em 2 de Julho de 2001, para onde havia ido com a mulher na década de 1980 depois de se aposentar, a fim de permanecer próximo da filha e dos demais familiares ali residentes.

Ao Chefe Gomes fiquei a dever, para além da sua amizade, a sua influência junto do Comandante para que eu fosse autorizado a prestar serviço como agente sinaleiro de trânsito, a fim de poder trabalhar de dia e estudar de noite. Foi assim que pude concluir o Curso-Geral dos Liceus, frequentando explicadores particulares.

Da última vez que lhe telefonei, já estava envelhecido e doente, sentado em cadeira de rodas por ter amputado as pernas devido a má circulação. Dizia-me, chorando, que nunca devia ter deixado a ilha do Faial, onde tinha amigos e todos o conheciam e respeitavam. Na ocasião, a esposa já tinha falecido e a filha andava com problemas graves de saúde de que veio a falecer prematuramente pouco tempo depois.  

BIBL: Jornal “O Monchique”, de 30-7-2001; Trigueiro, José Arlindo Armas,  “Fazenda das Flores - Um Século de Sucesso”, (2008), pp. 308-310, ed. da Junta de Freguesia da Fazenda. 
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27
maio

Luís José Armas (1917 - 1994) - Chefe de Serviços Municipais e Inspector de Casinos

Publicado em José Trigueiro
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FLORENTINO QUE SE DISTINGUIU

Nasceu no Curato ou lugar da Fazenda, freguesia e concelho de Lajes das Flores em 13 de Setembro de 1917, filho de António José Armas e de Maria José Armas, ele lavrador e ela doméstica. Entre as várias irmãs e irmãos que teve, salienta-se Fernando José Armas, baleeiro, Adelaide do Rosário Armas, regente escolar, e Helena do Carmo Armas, costureira de roupas de homem, bem como o irmão António, que cedo emigrou para a Califórnia, EUA, onde foi carpinteiro de embarcações em San Francisco. O pai foi um dos homens de maior prestígio e seriedade do seu tempo.

Concluído o ensino primário, permaneceu nas Flores, onde procurou melhorar a sua instrução e a sua cultura até que, já com a idade de 22 anos, seguiu para a Horta onde, por volta de 1942, como estudante externo, em três anos consecutivos, concluiu o Curso Geral do Liceu, equivalente no tempo ao 6.º Ano. A razão porque inicia os estudos já como adulto terá tido a ver com a situação financeira dos pais. Possuidor de privilegiada inteligência e de excelente memória, certamente herdada do pai que, já envelhecido e meio acamado, parecia uma enciclopédia em assuntos antigos florentinos, como ainda me lembro de ver.

Depois de ter estado algum tempo a estagiar na Tesouraria da Fazenda Pública de Lajes das Flores, onde trabalhava gratuitamente, ainda na década de 1940, rumou novamente à cidade da Horta onde se empregou como escriturário no Governo Civil, tendo ainda passado pela secretaria da Junta Geral do Distrito Autónomo da Horta, onde igualmente trabalhou como escriturário. 

Já com maiores conhecimentos administrativos, concorreu para os quadros da Administração Pública, fazendo concurso para o efeito, a fim de ingressar nos quadros das autarquias locais. Assim, passou pelas chefias de diversas secretarias de Câmaras Municipais do País.

Em 1957 vai chefiar a Secretaria da Câmara Municipal de Frei de Espada a Cinta, de 3.ª Classe, onde se valorizou, adquiriu experiência e enriqueceu os seus conhecimentos. No ano seguinte fez concurso para ascender à 2.ª Classe, tendo sido o mais classificado do País, motivo pelo qual aceita regressar aos Açores, onde ingressa, em 1958, como 2º. Oficial, na Secretaria da Câmara Municipal de Ponta Delgada. Nela  veio a assumir a respectiva chefia.

Mediante novo concurso para a 1.ª Classe, realizado em 1968, voltou a ser o mais classificado, pelo que em Setembro assumiu o cargo de Secretário ou de Chefe da Secretaria da Câmara Municipal do Cartaxo, onde permaneceu até 1974. Nos últimos meses desse ano concorre para a chefia da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, mas é dela afastado para a satisfação de interesses políticos de outros concorrentes partidários.

Assim, para compensá-lo desse ilegítimo afastamento, resultante das loucuras da “Revolução do 25 de Abril” de 1974, a Direcção-Geral da Administração Pública acabaria por convidá-lo a ingressar no Serviço da Inspecção de Jogos, facto que a aconteceu em 1975. Assim, percorreu os principais Casinos do País, onde trabalhou como Inspector de Jogos, nomeadamente nos Casinos de Jogos do Algarve, Figueira da Foz, Póvoa de Varzim e Espinho, onde veio a realizar o resto da sua actividade profissional.

Depois de uma brilhante carreira profissional, reconhecida com louvores oficiais pelas mais altas individualidades do Ministério da Administração Pública e das Autarquias Locais onde permaneceu, passou à situação de aposentado em 1987.

Entretanto, quando estivera na cidade da Horta havia-se enamorado da failense Maria Clotilde Ataíde Lemos, com quem veio a casar em data que não pudemos precisar. Do casal nasceram três filhos, Maria Helena de Ataíde Lemos Armas, Luís Fernando de Ataíde Lemos Armas, Paulo de Ataíde Lemos Armas, que hoje residem em Lisboa onde, depois de fazerem cursos superiores, aí labutam nas suas carreiras profissionais.

            Luís José Armas, devido a dificuldades de conjugar as possibilidades das suas férias com a sua vida privada ou familiar e com a vida profissional, poucas vezes visitou as Flores. Assim, o nosso convívio foi geralmente feito fora da ilha, não obstante nos termos ali juntado em tempo de férias, por mais de uma vez. Estivemos juntos em Lisboa e também no Cartaxo, por volta de 1973, quando ele ali se encontrava na chefia da secretaria da respectiva municipalidade.

Nessa ocasião eu estava colocado na Direcção de Finanças de Santarém e falámos das nossas carreiras profissionais e das nossas humildes e comuns origens, embora de diferentes gerações. Talvez por ele ser primo de meu pai, conhecíamos e apreciávamos mutuamente as nossas carreiras profissionais, ambas com características e finalidades semelhantes, conseguidas com muito estudo e dedicação. “Queimávamos” as pestanas, como ele gostava da dizer, a trabalhar e a estudar.  

Era competente, delicado e atencioso, mas de feitio introvertido e sério, apreciando contudo os diálogos amistosos, quer de natureza histórica, quer de actualidades vigentes. Como possuía uma vasta cultura, era um excelente conversador.

 O seu falecimento ocorreu em Lisboa em 1 de Outubro de 1994, um pouco inesperadamente.

_________

BIBL: Elementos fornecidos pela filha Maria Helena e pelo Padre José Alves Trigueiro, em entrevistas telefónicas de 15-1-2007 e de 17-1-2007.

            

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13
maio

Mons. Alfredo M. de Sousa Sacerdote que se distinguiu na valorização do património religioso nos EUA

Publicado em José Trigueiro
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FLORENTINO QUE SE DISTINGUIU

Nasceu a 22 de Outubro de 1872, em Santa Cruz das Flores, filho de José Jacinto de Lemos, sapateiro, e de Maria Laureana de Sousa, moradores na Rua do Rego. Era irmão de Maria A. S. Lemos, Secretária Suprema da S. P. R. S. L., da Califórnia e de Ana S. L. Rosa, Directora Suprema da mesma sociedade. E era neto paterno de Desidério José de Lemos e de Maria Clara Jacinta e materno de João Mariano de Sousa e da sua 2.ª mulher Ana Claudina de Fraga. Também era sobrinho materno de Monsenhor António Mariano de Sousa, que foi seu padrinho de baptismo, e poderá ter influenciado meritoriamente a sua vida sacerdotal.

 

Recebeu as suas primeiras instruções nas escolas elementares de Santa Cruz, da Ilha das Flores, entre 1878 e 1885. Os seus estudos secundários foram feitos na cidade de Angra do Heroísmo, entre 1885 e 1890, onde fez estudos eclesiásticos no Seminário da mesma cidade entre 1890 e 1895. Em 1 de Dezembro do mesmo ano, na Seminário de S. Francisco da Diocese da Angra, foi ordenado presbítero.

A sua primeira colocação como pastor, foi como coadjutor na freguesia da Fajã Grande, na ilha das Flores, onde esteve entre Novembro de 1895 e Outubro de 1898. Nesse mês foi colocado como coadjutor em São Sebastião da ilha Terceira, onde esteve de Outubro de 1898 e Setembro de 1899.

A seguir emigrou para os EUA onde chegou a San Francisco em Novembro desse ano. Em Oakland já tinha sua mãe e irmãs, habitando na casa 748 da rua 48. Mas, a sua primeira colocação na Arquidiocese de San Francisco, foi na Mission de San José, onde paroquiou entre Novembro de 1899 e Outubro de 1903. Aí ainda não havia a igreja das Cinco Chagas, mais tarde mandada construir por Monsenhor Henrique Augusto Ribeiro, e que viria a ser inaugurada em 15 de Julho de 1919, que fora também quem mandara construir a igreja de Lurdes da Fazenda de Santa Cruz, inaugurada em 1909.  

            Depois de estudos pós graduação efectuados no Colégio de Santa Clara, entre Outubro de 1903 e Janeiro de 1904, o Padre Alfredo Mariano de Sousa foi colocado como coadjutor entre Janeiro de 1904 e Janeiro de 1909. O seu primeiro cargo como pastor espiritual foi em Buhach, onde permaneceu entre Janeiro de 1909 a Novembro de 1910, tendo aí construído tanto a igreja como a residência paroquial. Daí foi transferido para Cotati, onde paroquiou até Novembro de 1913, quando foi nomeado pastor da igreja do Espírito Santo, de Centerville. Aí promoveu então a sua maior obra ao serviço de Deus. Edificou o salão paroquial em 1917 e a reitoria em 1920. A seguir promoveu a edificação da igreja de Centerville, em 1922 e, mais tarde, uma nova residência paroquial, concluída em 1927.

 Em data que não pudemos precisar, mas talvez aí por volta de 1936, foram-lhe conferidas honras de Prelado Doméstico, com o título de ilustríssimo Monsenhor, por Sua Santidade o Papa Pio XI. Este título foi-lhe dado pelos excelentes serviços pastorais prestados durante o longo período de anos em que pastoreou na Arquidiocese de San Francisco.

            «Faleceu em 1932, na Califórnia, tendo deixado um importante legado para seminaristas pobres da ilha das Flores», refere Francisco António Gomes, no livro à margem identificado, embora nele não se menciona a respectiva fonte. Todavia, no “Jornal Português” também à margem identificado, de 1938, onde se descreve uma síntese da sua biografia, nada consta sobre o seu falecimento e refere-se que «Há cerca de dois anos foram referidas ao Rev. Alfredo Mariano de Sousa as honras de Prelado Doméstico, com o título de Ilustríssimo Monsenhor, por sua Santidade o Papa Pio XI», conforme atrás mencionámos. Por outro lado, o jornal “As Flores”, de 13-1-1934, notícia que o Padre Alfredo Menezes Santos celebrou no dia de Reis uma missa «por intenção do benemérito, filho desta ilha e há muitos anos ausente nos Estados Unidos da América do Norte o sr. Pe Alfredo Mareano de Souza, que […] contribuiu com uma grande parte do capital necessário para a construção da Cruz, que no ano findo, foi erigida nos Matos desta ilha [na primeira Festa da Fonte Frade em 14-9-1933]»

 Deste modo, não temos a certeza sobre a data certa seu falecimento e é provável que o mesmo não tivesse ainda ocorrido.          

__________

Bibl: “Jornal Português”, de Pedro Laureano Claudino de Silveira, edição especial do 50.º aniversário (1888-1938), editado no Oakland, Califórnia; Gomes, Francisco António Nunes Pimentel, “A Ilha das Flores: da redescoberta à actualidade”, (2003), p. 236, edição da Câmara Municipal de Lajes das Flores; Jornal “As Flores”, de Santa Cruz das Flores, de 16-9-1933 e de 13-1-1934.

 

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29
abril

JOSÉ ANTÓNIO NUNES GOMES SILVA (1946-1989) Artista teatral e cineasta emigrado no Brasil

Publicado em José Trigueiro
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FLORENTINO QUE SE DISTINGUIU

Nasceu na freguesia da Fazenda, concelho de Lajes das Flores, em 16 de Abril de 1946, filho de António Nunes Silva, emigrado para o Brasil em 1953 onde viria a falecer, e de Vitória Nunes Gomes e Silva, doméstica que, octogenária, ainda ali vive com o filho João, na cidade de São Paulo. Era, portando, irmão de João António Nunes Silva, advogado ou jurista em S. Paulo, Brasil.

Depois de fazer o Ensino Primário na escola da sua terra natal, ingressou no Externato de Nossa Senhora da Conceição, de Santa Cruz das Flores, onde foi um excelente aluno.

A fim de se juntar ao pai na cidade de S. Paulo, no Brasil, e para ver se ali haviam condições para a restante família seguir esse trajecto, para lá emigrou por volta de 1963. Consequentemente, a mãe, o irmão João e a tia “Mariazinha” emigraram no ano seguinte, onde todos se juntaram naquela cidade.

Aí José António começou a vida como empregado num restaurante, onde conheceu um fotógrafo que, ao aperceber-se da sua inteligência, o convidou para trabalhar consigo numa revista literária. Ele pôde assim fazer experiências fotográficas e enveredar pelas máquinas de filmar. Algum tempo depois já fazia filmagens para a Televisão, aproveitando a pouca experiência que tinha nessa área e a muita inteligência para uma aprendizagem rápida de tudo o que se lhe propusesse fazer.  

Inicialmente, na cidade de São Paulo, montou estúdios fotográficos próprios para actuar no campo da moda, publicidade e fotonovelas, onde dirigiu trabalhos nessa área, durante dois anos. Depois, na “Editora Saber”, coordenou e dirigiu a revista literária “Jovem-Sex”, que acabou por ser retirada de circulação pela censura. Nessa época já escrevia com o pseudónimo de “Jean Garrett”, que utilizou no resto de toda a sua carreira artística, entrando então no campo cinematográfico que sempre o atraíra. Entre 1968 e 1993, ora como cenógrafo e intérprete, contra-regra ou assistente, ora como director, autor e produtor, actuou em 29 filmes. Desses filmes destaca-se “Sedução”, “A Ilha do Desejo”, “Amadas e Violentadas”, “Possuídas Pelo Pecado” e “Excitação”.

Mas, para além de filmes, também fez teatro, actividade iniciada em 1968, onde teve a função de maquilhagem e intérprete. Depois de uma passagem pelas filmagens, em 1980 voltou ao teatro onde foi produtor e co-director. Mais tarde, em 1989, voltaria outra vez a ser atraído pelo teatro, onde teve as funções de produtor e de director.

Depois de um curto interregno, voltou aos filmes. Em 1995, “Jean Garrett” passou a dedicar-se ao teatro e ao vídeo, administrando o teatro “Bibi Ferreira”, em São Paulo, onde produziu e dirigiu espectáculos e, paralelamente, escreveu e dirigiu filmes publicitários e institucionais para empresas. 

Estava nesse trabalho quando, com apenas 50 anos de idade, em Junho de 1996 foi vítima de um traiçoeiro acidente vascular que o vitimou quando seguia no seu carro. Segundo informa a família, terá sido encontrado por uma senhora que passava caído no passeio e, embora ela o tenha levado ao Hospital, já ali chegou sem vida.

Por ocasião do seu falecimento. a imprensa portuguesa, em jornal e data que não pudemos precisar – mas que se supõe ser da ilha de S. Miguel – escreveu que usava o pseudónimo de «Jean Garrett” e que “começou em 1966 como director e fotógrafo de fotonovelas». «Em seguida, foi cenógrafo e autor de José Mojica Martins (chegou a fazer um dos assistentes da personagem “Zé do Caixão”)». «Entrou como director em 1974, com “A Ilha do Desejo”, tendo realizado 16 longas-metragens até 1986». «Nesse período afirmou-se como um dos principais artesãos que trabalhavam na “Boca do Lixo” (centro de produção do cinema popular de São Paulo)». «Foi responsável por sucessos como “Mulher Mulher” (1977, com Helena Ramos), “A Mulher que levantou o Amor”, (1977, com Aldine Muller), “O Fotógrafo” (1980, com Patrícia Scalvi)». «Com o fim do chamado ciclo da “pornochanchada”, tornou-se, desde 1987, director artístico do Teatro Bibi Ferreira, de São Paulo». «Os filmes de Jean Garrett distinguiram-se da produção média da época pelo esforço no trabalho com a imagem e pelas narrativas trabalhadas. Embora tivesse trabalhado com vários géneros (da comédia realista ao drama “intentista”), foi no suspense que melhor se exercitou, em particular com “Excitação”, de 1976, [IA]».

Nesse texto informa-se ainda que «Foi enterrado ontem no cemitério de Vila Alpina, em São Paulo, o cineasta Jean Garrett, 50 [anos de idade], que morreu domingo, de enfarte», sem mencionar o seu nome verdadeiro nem o local onde José António nasceu, referia-se apenas que havia «Nascido em 1946, em Portugal...».

Pelo prestígio dos seus filmes recebeu os seguintes prémios: APCA de melhor música; APCA de melhor roteiro; melhor filme no festival de Maringá (PR); melhor direcção no festival de Aruarama (R.J). Sabe-se também que cerca de 10 dos seus filmes foram exportados para a Europa e para a América Latina. Trabalhou com cerca de uma centena de artistas, produtores e demais colegas, muitos deles nossos conhecidos em telenovelas brasileiras, entre os quais recordamos nomes como António Fagundes, Helena Ramos e muitos outros artistas de prestígio, que seria fastidioso evidenciar neste trabalho.

Segundo consta, quando faleceu, preparava-se para vir a Portugal, a fim de estabelecer acordos para a transmissão dos seus filmes, aproveitando a oportunidade para visitar a ilha das Flores, aonde ele jamais voltara. Recorda-se que quando emigrou tinha cerca de 18 anos, tendo deixado na ilha vários familiares e muitos amigos, que ele facilmente sabia fazer. 

Refere quem com ele lidou na freguesia da Fazenda que, já em criança, organizava, com outros jovens fazendenses, a improvisação de representações teatrais ou cinematográficas, na casa que o tio José Nunes Silva estava a concluir. Cobrava à rapaziada que assistia às suas brincadeiras teatrais uns centavos para os abonar das “mesadas” que os pais não tinham possibilidade de lhes dar. Recorda ainda que no grupo de companheiros estariam o Hélio Silva e o irmão José do Espírito Santo Silva, bem como outros elementos da sua geração. Representações semelhantes eram feitas para as tias maternas, na casa do lugar da Cova, onde ele improvisava, como sacerdote, a celebração de missas e de outros actos religiosos de que as tias gostavam de ver.

Dotado de características semelhantes às do pai – inconstante e invulgarmente inteligente – era um improvisador nato de tudo o que lhe vinha à cabeça.

Assim, supõe-se que teria ido, certamente, muito mais longe na arte teatral e cinematográfica se não tivesse falecido tão novo.

BIBL: Elementos curriculares fornecidos pelo tio, José Nunes Silva, residente na freguesia da Fazenda das Flores, arquivados nos meus documentos em 4-2-2006; elementos curriculares remetidos pelo irmão João e arquivados nos meus documentos em 23-11-2007; entrevista a Maria Helena Armas Trigueiro Pacheco, Ponta Delgada, arquivada nos meus documentos em 24-11-2007; Trigueiro, José Arlindo Armas “Fazenda das Flores – Um Século de Sucesso”, 2008, pp 437 a 439, ed da Junta de Freguesia da Fazenda das Flores. 

 

 

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