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  • A TRAGICOMEDIA COFACO
02
fevereiro

A TRAGICOMEDIA COFACO

Escrito por  Genuíno Madruga
Publicado em Genuíno Madruga
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A partir dos primórdios dos anos 50 do século passado, teve início nos Açores a construção de várias fábricas de conservas de atum, isto a par da construção de diversas traineiras quer por sociedades que se constituíram quer por pessoas que individualmente viram na abundância de atum, uma possível fonte de riqueza. Todavia, algumas das variantes biológicas e outras hoje mais ou menos conhecidas vieram “estragar” e em muitos casos arruinar aquilo que parecia bom negócio! Surge então a primeira fábrica de conservas de atum, nas Lajes do Pico, que não só laborava atum como doirado e construíram ou deram lugar a construção a várias traineiras que para a época até eram boas. Pescava-se perto de terra tal era a abundância de cardumes e todos os dias descarregava-se quase sempre porões cheios e por vezes até o convés.
Era a Bela Doris, o Marujo, o Castelete o São Judas Tadeu, o Pico Ruivo, nas Ribeiras do Pico a Salazar e a Carmona e em São João a Ponta Rasa e outras que ao fim da tarde e por vezes noite dentro descarregavam, seguindo-se a ida para a marca ou limpo à procura de isco (chicharro), era uma vida dura com pescadores locais cujas famílias “gastavam” a crédito nas mercearias da freguesia. No final da safra recebida a soldada acertavam-se as contas e tudo mais ou menos corria bem, pescava-se o que se conseguia vender, sendo certo que a safra tinha início em Abril ou Maio prolongando-se até Outubro.
A “fábrica das Lajes”, por razões que desconheço, foi à falência (falava-se em desfalque) e com ela vários dos armadores do atum também faliram, havendo mesmo caso de traineira que já não chegou a arriar. No Pico, surge ainda na Areia Larga uma pequena fábrica que havia de dar lugar à COFACO. Em São Roque do Pico constituiu-se uma sociedade da qual fez parte a Casa dos Pescadores da Horta surgindo a TUNAPESCA, exclusivamente virada para a conserva de atum que havia de entrar em falência por razões também desconhecidas, sendo certo que os 15% do capital social com que a Casa dos Pescadores da Horta entrou, foram totalmente perdidos.
Em São Jorge, na Calheta, surge a fábrica Marie D` Anjou bem como algumas traineiras Urzelina, Marie Sousa. Na Vila da Calheta surge a fábrica de conservas Santa Catarina que chegou a ter 3 traineiras. Esta Santa Catarina que, como outras, viveu tempos difíceis acabaria por encerrar ficando o património em degradação. Foi este património que adquirido pela CM da Calheta deu lugar a atual Fábrica. Acerca da Santa Catarina devo referir ser um dos melhores investimentos que o poder local efetuou nestas ilhas, porquanto na Vila da Calheta veio contribuir para a dinamização da fraca economia local. Importante referir que mesmo com a diversificação das conservas de atum que esta conserveira produz (está no bom caminho) continua apresentando saldos negativos de exploração o que não augura nada de bom. Na Terceira esteve a TERCON que também foi proprietária não só da fábrica de conservas no Porto das Pipas, mas também de várias traineiras, tendo também falido. Na ilha de São Miguel a fábrica de conservas CORRETORA, sendo a mais antiga dos Açores, produz conservas de atum a par de outras como seja marmelada e compotas tendo também passado por dificuldades financeiras relacionadas com a cronica falta de atum. Na ilha do Faial existiu a BJ BORGES que, sendo conserveira de atum, foi ainda proprietária de várias traineiras construídas na década de 80 com importantes apoios governamentais e mais tarde comunitários. Esta conserveira havia de ser adquirida pela COFACO, entrando também em falência, encerrando a actividade em 2009 sendo que o respectivo património esta em completa degradação, as traineiras vendidas ao desbarato ou simplesmente abatidas.
Na década de 80 o Governo Regional dos Açores iniciou a reconversão da frota pesqueira nomeadamente com a construção da “frota azul” atuneiros que financiados a 100% entregou a alguns mestres pescadores que por sua vez se tornariam armadores. Financiou ainda diversas construções de traineiras que as conserveiras ou empresas ligadas a estas levaram a cabo. Na ilha do Pico deu-se o ressurgimento dos estaleiros de construção naval em Santo Amaro e na ilha do Faial a SOCONAVE construiu e reparou várias traineiras da COFACO.
Após esta breve introdução, breve porque muito ficou por referir acerca da pesca do atum nestas ilhas, de seus protagonistas, no fundo acerca da profunda ligação dos Açorianos a este nosso mar que nos tem dado sustento, alegrias, mas, também, desalento e emigração. Presentemente e fruto por um lado de incompetências, má gestão ou simplesmente falta de visão e por outro lado esta globalização dos recursos que nos mata por sermos pequenos e expostos sem “lei nem roque” ao que se passa a nossa volta, a indústria conserveira Açoriana aos poucos foi e vai morrendo, vai acabando! A COFACO no Pico e porque não em São Miguel é um dos últimos actos deste trágico-comedia. A COFACO, tal como as outras conserveiras, fecha porque não há atum e o pouco que ainda aparece vendido na lota dá muito melhores rendimentos aos pescadores- O que vai para a fábrica quase sempre é de fraca qualidade, logo não dá bons proveitos. Importar atum do mercado internacional, por exemplo de Porto Rico, também não é solução porque embora com transportes subsidiados, esse peixe fica sempre a preços incomportáveis, sendo que as conservas terão que competir com outras provenientes da Tailândia, Filipinas, Samoa Americana etc. Devo ainda acrescentar que as nossas conservas valem o que valem porque o pouco atum que enlatam é “pescado de salto e vara, dolfhin Safe, produzido na reserva da biosfera dos Açores”. Acresce que a indústria conserveira mundial trabalha com atum pescado por navios cercadores que, como sabemos, matam tudo o que vem na rede.
No final dos anos 90 a capacidade de laboração instalada nos Açores ascendia as 80.000 toneladas. O máximo que se pescou naquela época foram cerca de 13.000 toneladas, logo a partir daqui já se podem tirar conclusões. Segundo consta em 2017 a COFACO no Pico recebeu 850 toneladas de Bonito, o que dá aproximadamente para um mês de laboração. As conclusões são óbvias. Há responsabilidades do Governo que não soube acautelar esta indústria e nem tão pouco a nossa frota de pesca, subsidiando o abate de traineiras (dó de alma ver) permitindo a venda de outras para fora da Região, não acautelando devidamente nos foros internacionais os interesses da pesca Regional, canalizando fundos e permitindo a instalação na Região de empresas com fins no mínimo duvidosos, não cuidando como era seu dever dos interesses económicos da pesca nem da indústria conserveira. Os donos ou acionistas da COFACO, incluindo o Governo Regional, via LOTAÇOR, não estão isentos de responsabilidades. A COFACO chegou a estar cotada no Mercado de Ações da Bolsa de Valores de Lisboa! Chegados a esta situação, previsível, só resta, perante os factos, acautelar até onde for possível os interesses de todos quantos deram o seu melhor para que a COFACO fosse a grande empresa do Pico que direta ou indiretamente serviu os Picoenses e não só. Não sendo possível “apagar” a história ou como já se vê “sacudir água do capote” que cada um assuma as respectivas responsabilidades.

Horta, 29 Janeiro 2018

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