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04
outubro

Retalhos da nossa história - 294 - O romancista António de Lacerda Bulcão

Escrito por  Fernando Faria
Publicado em Fernando Faria
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A cidade da Horta foi, no século XIX, o berço da ficção literária açoriana. Aqui surgiram os primeiros romancistas, como António de Lacerda Bulcão, o mais antigo contista açoriano e, provavelmente, um dos mais fecundos escritores faialenses.
Natural desta cidade da Horta, onde nasceu a 17 de Junho de 1817, era filho do advogado e poeta António Silveira Bulcão e de Maria de Lacerda Labath Bulcão.
Ao longo da sua vida trocou muita correspondência com o Duque de Ávila e, após a morte deste em 1881, com o sobrinho e herdeiro Dr. António José de Ávila.
Numa das cartas remetidas a este último, datada de 1 de Novembro de 1883, anexou umas notas biográficas que, por serem inéditas, julgo de interesse transcrever: “Servi no posto de alferes na 4.ª companhia do segundo Batalhão de Voluntários da Rainha, criado em defesa da liberdade por Decreto de 7 de Setembro de 1831 e dissolvido por portaria do Ministério do Reino de 8 de Agosto de 1840” (…) Foi nomeado amanuense do Governo Civil da Horta por alvará de 21 de Julho de 1836 e já dois anos antes havia servido como empregado extraordinário na Administração deste Concelho; promovido a 2.º oficial em 20 de Dezembro de 1872, sendo aposentado em 11 de Fevereiro de 1880”. Desde que foi nomeado funcionário do Governo Civil, desempenhou, “por ordem dos meus chefes”, múltiplas comissões de serviço em várias ilhas dos Açores e como nunca foi ressarcido das despesas que teve de fazer, reclamou e implorou junto daqueles dois influentes políticos – que pelo teor das missivas se deduz serem também seus amigos – para que o Ministério do Reino o indemnizasse daqueles gastos. E eles devem ter sido avultados, pois foram várias as ditas comissões: de 1838 a 1853 realizou cinco “aos concelhos do Pico sobre recrutamento e outros serviços; às ilhas das Flores e Corvo em 1842; à ilha Graciosa em 1844 a socorrer os seus habitantes que morriam à sede, levando à minha conta 400 pipas de água (…); às ilhas Terceira e São Miguel em 1851 conduzindo cinco contos de reis dos cofres públicos para comprar cereais por conta do Estado, para abastecer as ilhas do Faial e Pico em vista da terrível crise alimentícia que estavam sofrendo os habitantes das duas ilhas deste Distrito”.
Escreve ele que “as despesas feitas em todas estas comissões foram por mim dispendidas, com graves sacrifícios, sem haver recebido do Governo um real de gratificação, apesar de haver requerido por três vezes ao Ministério do Reino e ter requisitado o seu pagamento pelo respectivo Governo Civil”. Mas, por mais que instasse, e, acrescente-se, por mais esperanças que lhe dessem de Lisboa os seus interlocutores, o certo é que pelo menos até 7 de Novembro de 1894 nada lhe fora pago. Com efeito, data daquele dia a sua última carta existente nos Arquivos Particulares Ávila e Bolama, que actualmente se encontram na Torre do Tombo. Nela diz ao 2.º Conde de Ávila que “confio que V.ª Ex.ª cumprirá a sua promessa de não olvidar a minha justa pretensão, pelo que sou sumamente reconhecido”.
Nesta altura, António de Lacerda Bulcão já desistira de ver satisfeitas todas as despesas que fez, mas ainda aguardava que lhe enviassem “ao menos uma quantia qualquer” que o auxiliasse “a pagar os juros do dinheiro que tomei de empréstimo para as despesas que fui obrigado a fazer” nessas deslocações a seis ilhas dos Açores. Perante o que classifica de “desumana indiferença” do Ministério do Reino, ele ainda confiava que o Conde de Ávila “condoendo-se da minha triste sorte e da minha infeliz família, fará todos os esforços até conseguir que se me faça a devida justiça”1.
Tenho, porém, sérias dúvidas que isso tenha acontecido. O mais provável é que, como havia previsto em anterior carta – de 13 de Dezembro de 1890 – tenha “descido à sepultura sem obter a justiça” a que se considerava com direito.
Dotado de esmerada educação, António de Lacerda Bulcão, na opinião de Marcelino Lima, ficou conhecido nas letras faialenses, “por virtude das suas numerosas produções, na quase totalidade constituindo novelas, algumas baseadas em particularidades históricas das ilhas do Faial e Pico, outras em assuntos de pura fantasia”2. Ele próprio, nas tais notas autobiográficas, revela que, “além de muitos e variados artigos publicados nos jornais do arquipélago, escrevi e publiquei 49 romances, sendo 17 impressos em 3 volumes e os restantes em folhetins”. Esses três volumes, que são hoje uma raridade, constituem a colectânea Romances Originais e foram por ele sucessivamente dedicados ao Visconde de Sant’Ana, a Jorge S. C. Oliver e a Walter Bensaúde, sempre “em testemunho de consideração e amizade”.
Era Cavaleiro das Ordens Militares de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, casara a 17 de Julho de 1836 com D. Maria Prisca Pereira de Sousa de quem teve seis filhos e faleceu a 21 de Fevereiro de 1897. 

 

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

 

1ANTT/APAB, antiga caixa 2, n.º 5
2Marcelino Lima, Anais do Município da Horta, p.562

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