As ilhas surgem desde as descrições da antiguidade e, posteriormente, da Idade Média Cristã como alegorias do Éden. Em narrativas medievais, como a romanceada viagem de Trezenzónio à Ilha de Solstício, esta surge após a dura prova de um mar alteroso como um lugar paradisíaco onde o herói permanece durante sete anos, e de onde regressa após a aquisição de conhecimento místico, para a sua divulgação. Esta ilha “é povoada por ovelhas e aves e o mel corre em abundância por entre a fragrância das flores e das árvores de fruto. (…) Na ausência de Verão e de Inverno, uma Primavera eterna envolve a ilha, onde nunca há noite, dado que a luz das estrelas sempre mantém uma claridade que afasta as trevas.” A amenidade climática é uma constante destas descrições, que pretendem ser de um lugar ideal.
Noutras narrativas da época medieval a ilha surge como lugar que assegura o repouso temporário ou o apoio logístico dos navegadores, assim como o abrigo das vicissitudes do mar e tempestades. Estes pontos de paragem surgem como locais temporários num percurso mais vasto mas, por vezes, com uma dupla face: lugares paradisíacos mas também espaços onde se desenrola uma ação conducente à superação de uma prova. As ilhas povoam o universo imaginário medieval desempenhando papéis semelhantes aos dos castelos, embora num contexto mais espiritualizado. No Renascimento, e como instrumento de crítica social foi escrita, em 1516, a “Utopia” de Thomas More, uma narrativa passada numa ilha onde não existiam conflitos sociais e onde um sistema político e económico ideal se concretizava no espaço circular e isolado de um mundo perfeito. Esta narrativa cunhou um termo que serviu para a conceção dos mais diversos lugares-ideais, o termo utopia.
Na “Crónica do imperador Clarimundo”, de 1520, na descrição da Ilha Bem Aventurada refere-se que “numa primeira aproximação, a ilha estava encoberta por uma espessa névoa que só se dissipou pela força dos raios solares; seguiu-se a revelação de um lugar ameno, revestidos de ciprestes, cedros e palmeiras de tanta altura que pareciam tocar as nuvens, entre os quais corria uma graciosa ribeira bordejada de flores; (…) Os paços tinham vários jardins e da maior torre abrangia-se toda a ilha com a vista, ilha coberta de arvoredos com três férteis várzeas onde os três mil habitantes de uma vila obtinham facilmente o seu sustento.” Nesta descrição surge mais uma vez a referência a uma amenidade climática ideal mas também aos nevoeiros característicos de territórios insulares. É referida a presença de densa vegetação de folha persistente, de águas permanentes e de solos férteis, paisagem que se associa a uma ideia de paraíso e muitas vezes aos Açores.
Um outro mito, do jardim das Hespérides, desenrola-se não numa ilha mas numa imaginada zona peninsular banhada pelo oceano Atlântico. Este mito encontra-se também associado à conceção de um paraíso terrestre, lugar de amenidade e de harmonia com a natureza. No jardim das Hespérides existiriam os “pomos de ouro”, frutos que conferiam a imortalidade. Este termo poético de “pomos de ouro” foi mais tarde associado às laranjas que nos séculos XVIII e XIX passaram a ser amplamente exportadas dos Açores para todo o mundo ocidental, especialmente para a Inglaterra. Curiosamente, o comércio da laranja conduziu a uma “idade de ouro”, em termos económicos, destas ilhas.
Diversos autores em Yvette Kace Centeno; Lima de Freitas (coordenadores) - “A simbólica do espaço: cidades, ilhas e jardins”. Lisboa: Instituto Português da Língua e Literatura, 1991.