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01
fevereiro

O banho de ética

Escrito por  Alexandra Manes
Publicado em Artigos de opinião
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Brecht, que falava alemão, sabia da vida como poucos e teve de fugir ao nazi-fascismo, alertou-nos: prenderam os operários e não nos importámos; prenderam os miseráveis e não nos importámos. Quando nos vierem prender, ninguém estará cá para se importar. São estes os tempos que vivemos, de apatia democrática e do quase abandono cívico. E poucos/as se sobressaltam. Assistimos à diluição das instituições democráticas e ao empobrecimento da vida cívica, enquanto vamos deitando um olhar feliz às migalhas que nos restam e ao magro rendimento com que a injusta sociedade capitalista entretém os descamisados.
Vem isto a propósito do despropósito de quem, eleito pelo povo para o representar, cuida antes de mais de garantir o seu mealheiro diário, simulando presenças que jamais aconteceram em lugares nobres da vida da polis. É a coisa pública levada aos tropeções, pela escadaria do Palácio de São Bento acima.
O dom da ubiquidade de que se fez alarde não pôde prescindir de uma password familiar, nem de uma façanhuda Maria da Fonte que veio a terreiro numa espécie de “mea culpa e depois?”, em claríssima manifestação de indiferença pela indignação de que alguns e algumas ainda são genuinamente capazes de possuir e o demonstrar.
É assim que se menospreza a democracia e se leva o povo a descrer nas suas virtudes. O caso já era ridículo, mas o episódio não se ficou pela password, pelo trabalho no mesmo terminal. O chefe de fila dos dois ilustres representantes do povo que nos ofereceram este espetáculo, que envergonha a democracia, também fala alemão, revelando-o quando questionado em português acerca do caso.
Empoleirou-se no lugar que ocupa trazendo no bolso uma edição atualizada da Ética A Nicómaco, jurando que a felicidade do povo português passa por um banho de ética. E sobre o caso, tem duas palavras, uma para o reduzir a uma questiúncula, que nos dicionários significa “questão fútil” ou “inútil”; outra, inexplicável, retirada da língua de Brecht, o tal que avisava sobre a indiferença que mata a democracia.
Estamos assim conversados/as sobre banho e sobre ética e (muito) esclarecidos/as acerca de quem se diz alternativa de poder que se oferece a Portugal.
É necessário dar cabal resposta às “virgens ofendidas” que bradam de indignação (como assim denominou a façanhuda Maria da Fonte), porque num tempo de exigência ética como o que vivemos, o pior que se pode fazer é encolher os ombros e esperar que as pessoas esqueçam nomes como Silvano ou Cerqueira. Ou antes, esqueçam-nos, mas não esqueçam aquele que fala(va) alemão. Brecht, claro está.

 
Alexandra Manes
Coordenadora do BE/Terceira

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