Foi apresentado na semana passada no Faial o livro Arqueologia nos Açores, da autoria de José Luís Neto. Esta obra regista o percurso da Arqueologia no arquipélago, desde os primeiros achados, no século XVIII, e dos primeiros estudos sistemáticos, na década de 1960, até hoje.
Este texto não pretende ser uma recensão do livro, tão-só uma chamada de atenção para a sua importância e para algumas questões que são do interesse dos faialenses (não dispensando a sua leitura, que recomendo).
Sobre o caso açoriano, apesar do trabalho muito meritório levado a cabo pela Direcção Regional da Cultura nos últimos anos, sobretudo na Carta Arqueológica dos Açores, o autor reconhece que falta fazer o trabalho junto da comunidade: “Os conhecimentos, gerados pela investigação e pelas obrigações legislativas resultaram em pouca divulgação. (...) A arqueologia, se encarada como fator de desenvolvimento cultural de uma determinada comunidade deve, não só contribuir para o conhecimento da mesma, mas também, ser um dos ligantes relevantes de identidade.” (p. 14) Um dos principais problemas, desta como de outras áreas, é que os recursos são escassos e a maior parte do trabalho é feito “de emergência”, não restando muito espaço para o trabalho de divulga-ção necessário para que este património possa ser utilizado enquanto mais-valia para a comunidade. Como nos diz mais adiante, a respeito de Angra: “A arqueologia urbana é, numa percentagem esmagadora, uma arqueologia de reação, de carácter de emergência, que procura minorar os impactos de obras / remodelações urbanas.” (p. 44)
Defende que os centros históricos mais significativos do arquipélago, entre eles o da Horta, devem ser interpretados como um sítio arqueológico em si (p. 49), ou seja, em todas as intervenções realizadas na zona histórica (como tantas que agora se estão a realizar por cá) deve haver estudo ou acompanhamento arqueológico (em graus diferentes, consoante a situação), caso contrário a maioria deste património irá perder-se (como, de facto, está a suceder). Se olharmos os casos que refere sobre o Faial, encontramos, por exemplo, que um arqueólogo se deslocou ao Castelo de Santa Cruz em 2003 durante as obras que então aí decorriam, mas não foi possível accionar nenhum mecanismo para parar a obra, perdendo-se a oportunidade de estudar o local. Nas intervenções no centro histórico devem ser não só identificadas e estudadas estruturas ou outros elementos de interesse arqueológico, como podem depois ser integrados nas novas construções (prática comum em Angra e muitas outras cidades), procedendo-se assim à “(re)criação de novos pontos de interesse no tecido urbano”. “Mais simplesmente, musealizam-se ruínas, consequentemente atraem-se mais visitantes e, pela inerente melhoria do espaço urbano leva-se a estadas prolongadas das pessoas nessas áreas, capitalizando-se esse efeito no aumento de vendas nos estabelecimentos comerciais aí existentes.” (p. 49). No nosso caso, dado o avançar de obras pela cidade, temo que quando se “acordar” para esta realidade seja tarde demais e se tenham perdido já a maioria dos vestígios que poderiam ter sido usados para enriquecer os edifícios e a cidade.
Termino com uma nota positiva. O “nosso forte” são os vestígios subaquáticos (até há pouco os únicos estudados), sobretudo os naufrágios descobertos durante o estudo de impacto para a construção do porto novo, a partir de 2007, na sequência dos quais “a baía da Horta se converteu rapidamente num dos mais impressionantes locais da arqueologia subaquática portuguesa” (pp. 93-94). Falta agora criar um local e um projec-to para que os materiais encontrados possam sair dos depósitos e ficar disponíveis à fruição do público (p. 95).
Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
Leia-se: José Luís Neto, Arqueologia nos Açores. Uma breve história, Angra do Heroísmo, Instituto Açoriano de Cultura, 2018, 127 pp.
Em defesa da Língua Portuguesa, o autor deste texto não adopta o “Acordo Ortográfico” de 1990, devido a este ser inconsistente, incoerente e inconstitucional (para além de comprovadamente promover a iliteracia em publicações oficiais e privadas, na imprensa e na população em geral).
DR