Retomo um texto publicado neste espaço há quase três anos, “sobre o cosmopolitismo faialense”. Na altura apresentei a definição do termo e afirmei a sua aplicabilidade no caso do Faial, questionando-a, mas mantendo a ideia já antiga de que temos uma sociedade cosmopolita. Porquê? Porque temos contactos e presenças externas e somos um ponto de passagem (e permanência) de gentes e culturas de várias origens. Faço agora um percurso diferente de reflexão, deixando o óbvio (os contactos permanentes com outras culturas) para me centrar nos efeitos que ele tem.
Socorro-me de alguns exemplos dispersos ao longo da nossa história de cinco séculos e meio. Logo no início a ilha foi povoada por gente de várias paragens, inclusive tendo um capitão estrangeiro (casado com uma portuguesa). No entanto, parece que a sua cultura de origem – flamenga – foi depressa suplantada pela portuguesa (da maioria da população). Ao longo do século XVI a Carreira da Índia (portuguesa) foi passando pelo Faial, deixando produtos como a canela, ainda hoje muito presente na nossa gastronomia, e foi também levando faialenses para o Oriente e outros sítios. No século XVII o porto da Horta começa a afirmar-se como o principal dos Açores, o que se vai consolidar na centúria de Setecentos, e surgem representações consulares dos principais estados europeus (questão central do meu texto anterior), atestando a presença e a passagem regular de estrangeiros entre nós. No século XVIII chegam-nos relatos dispersos de estrangeiros que vêm reabastecer ou fazer comércio ao Faial, contactando com as autoridades locais por via dos seus cônsules, que lhes servem de intérpretes e os levam a visitar a ilha. É também o século dos Labat, dos Brum e dos Arriaga (para citar exemplos), que têm relações de proximidade com lugares tão distintos como La Rochelle (França), Goa (Índia) ou Macau (China), de onde recebem produtos e informações com regularidade, assim como da rota com o Brasil, que trocava anualmente produtos locais com brasileiros, sobretudo no Rio de Janeiro. No século XIX, mais próximo de nós e mais bem conhecido, chegam os Dabney, com as suas práticas americanas, recebendo em sua casa viajantes durante quase um século. Mais tarde o cabo submarino traz várias nacionalidades para os escritórios das companhias, e as rotas aéreas, tal como as marítimas, ligam o Faial ao mundo. Hoje temos a Marina, o Peter, depois a Natureza, os trilhos, o whale watching, os cruzeiros e o Turismo em geral (em crescimento, mas que foge à questão).
Mas, olhando em detalhe os casos conhecidos, os Dabney viveram sempre num mundo próprio entre os seus (não casavam com portugueses, por exemplo), contactando de perto com os faialenses apenas das elites. Com os cabotelegrafistas aconteceu algo semelhante, apesar de influências que naturalmente foram passando. Que impacto estas presenças teriam ao nível da população em geral? Nas freguesias rurais por exemplo? Ainda hoje temos entre nós, em permanência ou em passagens frequentes, inúmeros estrangeiros, quer sejam iatistas ou, por exemplo, investigadores da universidade. Mas o que passa desse universo para o comum dos faialenses? Seremos uma sociedade cosmopolita ou uma sociedade que convive bem com o cosmopolitismo dos outros (e de alguns de cá)?
Fica a reflexão, (como sempre) aceitam-se contributos e votos de Bom Ano!
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Veja-se: “Sobre o cosmopolitismo faialense”, in Tribuna das Ilhas, 27.05.2016.
Em defesa da Língua Portuguesa, o autor deste texto não adopta o "Acordo Ortográfico" de 1990, devido a este ser inconsistente, incoerente e inconstitucional (para além de comprovadamente promover a iliteracia em publicações oficiais e privadas, na imprensa e na população em geral).