Este cavalheiro terá sido, no seu tempo, uma figura característica, que viveu, longos anos, na velhinha, mas progressiva cidade da Horta. Era uma personagem que irradiava humor e essa condição favorecia-o, intensamente, no teatro.
Segundo fui informado, este senhor chegou à nossa cidade, vindo do centro do Continente, exercendo, nessa altura, a profissão de empregado bancário. Aconteceu que a instituição bancária, aonde trabalhava, foi à falência, porém, visto que o cidadão em causa era professor primário, logo concorreu à Escola do Capelo, aonde exerceu a actividadede docente vários anos.
Depois, concorreu e ficou colocado na Escola da Volta, um subúrbio da freguesia da Conceição. Foi, então, que tive a oportunidade de lidar com ele e, desse relacionamento, logo fiquei ciente que era uma personalidade singular, jocosa, mas cordata, já que não tenho ideia de o ter visto “zangado”, com quem quer que fosse.
Antes, porém, na sua conduta habitual, parecia ser “folgazão”, “pirracento” por vezes e não me consta de o ver aborrecido ou entristecido.
Foi objecto, durante a sua existência de bastas e divertidas peripécias e até controvérsias, todavia, sempre ligado à Escola e, frequentemente, ao teatro amador, sem esquecer os célebres episódios das “rifas” da sua mota, cujo desfecho acertava sempre no próprio dono.
Para concretizar tudo quanto referi, permita-se-me, aqui e agora, narrar um episódio hilariante, vivido com este divertido personagem e uma sua sobrinha, artista de palco, como ele e muito conceituada.
Referencio, aqui, a peça intitulada “O Pai Tirano”, na qual o professor Barata interpretava o papel de pai austero e violento e a sobrinha, o papel de enamorada, muito temerosa e nervosa.
O professor, ao entrar no palco, com ares de perfeito autoritarismo, deparou-se com a dita sobrinha, agora no papel de filha e que lia uma missiva do namorado. Ao ouvir os passos do pai, procurou os fósforos para queimar a missiva, mas como não existiam, ali, e numa atrapalhação inesperada, decidiu, de imediato, rasga-la e escondê-la.
O nosso professor, na sua função de “pai tirano”, ao entrar no palco, devia dirigir-se à filha, em tom autoritário e dizer:
“Cheira-me aqui a papel queimado”.
Porém e sem se desconcertar, e em tom severo, disse:
“Cheira-me aqui a papel rasgado”.
Esta figura do professor, alta e franzina, muito popular e badalada, na Horta, a certa altura foi objecto dum dito singular, proferido por um seu amigo de nome “Matos”. Eis o referido dito:
“Oh Barata se você não existisse, teria de ser inventado”.